terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Nostalgia











Agora, da árvore encostada ao bloco B, apenas resta uma fotografia. Talvez ela não morra (para já), mas não terá o porte imponente que prometia. E porquê, afinal? O céu era o limite...

Um mundo melhor


Se o mundo fosse como eu quero, haveria mais adolescentes como as heroínas de "As virgens suicidas", livro de Jeffrey Eugenides "vertido" para cinema por Sofia Coppola, onde as ditas, de camisa de dormir, se amarram à árvore defronte de casa para impedir que os jardineiros municipais a cortem. E notem que essa árvore estava mesmo infectada...

Mitos, superstições e falsas crenças (IV)

Aliás, as Produções Fictícias, empresa de conteúdos culturais (não tenho bem a certeza de que a designação seja correcta) tem uma presença cada vez mais importante nas nossas vidas. O seu volume de negócios, presume-se, será elevado. E quem a lidera? Nuno Artur Silva, mais um homem de letras.

Mitos, superstições e falsas crenças (III)

Ressalva importante encontra-se num destaque no mesmo artigo, onde João Fernandes, director do Museu de Serralves, alerta: "(...) acho que seria importante que não se começasse a olhar para a arte e cultura do ponto de vista economicista. Seria aprisioná-las e pôr-lhes fim."

Mitos, superstições e falsas crenças (II)

O caderno de Economia do Expresso de 20 de Fevereiro contém um texto de Alexandra Carita que se inicia da seguinte forma:

"O sector cultural e criativo cresceu mais do dobro do que a própria economia. Um crescimento anual de 2,9% torna-o num dos sectores mais dinâmicos da economia nacional face a uma taxa média de crescimento da economia situada nos 1,3%."

Este sector terá gerado em 2006 mais de 3690 milhões de euros, tem "(...) um desempenho económico superior ao sector têxtil e de vestuário, ou muito semelhante ao do sector automóvel, [é] mais activo que as indústrias de alimentação e bebidas", " (...) é responsável por mais postos de trabalho que as actividades imobiliárias e emprega metade dos trabalhadores (...) da hotelaria e restauração", num total de 127 mil postos.


Para mim, que já ouvi mais do que uma vez dizer que isto ou aquilo (as obras de leitura integral, os exercícios de escrita criativa e correctiva, o francês, a gramática, "you name it") não serve para nada, este artigo - tal como a entrevista de Ricardo Araújo Pereira - foi um bálsamo.


É que, se às vezes apetece responder "É a cultura, estúpido!", agora também já posso dizer "E dá milhões."

Mitos, superstições e falsas crenças (I)

Pois o Ricardo Araújo Pereira, "o" Gato Fedorento, é um homem de letras. Eu já tinha achado estranho que se referisse com tanta naturalidade a Gregor Samsa, o protagonista da Metamorfose de Kafka - que podem requisitar aqui na Biblioteca. No decurso da entrevista de que ontem lhes falei, percebi que tem uma formação na área das Humanidades - que aliás continua a "frequentar" - e um curso de escrita criativa. É engraçado, não é? Afinal, ele tem emprego garantido...

Precaução










A árvore encostada ao Bloco B oferecia perigo para alunos, professores e funcionários. Por isso, a equipa de lenhadores começou a podá-la. No intervalo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Ricardo Araújo Pereira, o intelectual improvável

Na NS de 20/2/2010 li uma entrevista de Ricardo Araújo Pereira. Não a tenho aqui, pelo que terão de me perdoar algumas imprecisões. Vou ver se arranjo um exemplar, para que não me esqueçam os muitos aspectos importantes de que vos quero falar.

Razões de peso me levam a falar do primeiro. É que resolvi trazer os meus Dez livros da Arquitectura, de Vitrúvio, para redigir um textozinho sobre a catástrofe na Madeira no blogue "Duas culturas". Ora, já que vim carregada, vou pô-lo a render.

Acontece que Vitrúvio, arquitecto militar romano que escreve o seu tratado no século I a. C., considera que o arquitecto deverá ser "(...) instruido en las Buenas Letras, diestro en el Dibuxo, habil en Geometría, inteligente en la Óptica, instruido en la Aritmética, versado en la Historia, Filósofo, Médico, Jurisconsulto, y Astrólogo".


Porquê literato? "(...) para poder con escritos asegurar sus estudios en la memoria."


Porquê filósofo? "La Filosofía hace magnánimo el Architecto, y que no sea arrogante, antes flexible, leal y justo: sin avaricia, que es lo pricipal; pues no puede haber obra bien hecha sin fidelidad y entereza. No será codicioso, ní amigo de receber regalos; antes procure antener su reputacion con gravedad y buena fama (...)"

Ricardo Araújo Pereira rejeita explicitamente a astrologia (leiam a entrevista e vejam se não tenho razão). Porém, é um homem culto, um intelectual que não vive nas altas esferas, mas que toma partido quando deve fazê-lo. Escreve bem (as suas crónicas atestam-no). Não é arrogante (o jornalista testemunha a sua tendência para se desmerecer). Não é ganancioso (está em "ano sabático"). Não será grave, mas tem demonstrado inteireza moral e postura ética (veja-se o caso dos cartazes).

Não sei se merecemos um humorista desta craveira. Mas que temos sorte em tê-lo, lá isso temos.

Paulinha e os russos

A Paulinha recicla tudo: roupa, móveis, linhas, sacos, tecidos, botões, papéis. Até comida ela recicla: 1ª fase: empadões, croquetes, soufflés; 2ª fase: composteira (e tem pena de não ter animais, para poder usar o "balde das lavaduras", como antigamente).

Há dias lembrei-me dela. Um artigo publicado no Courrier International de Fevereiro de 2010 dá conta de uma nova tendência (que, aliás, poderão encontrar nas revistas de moda e decoração) na Rússia, a tendência para o restauro. No "lead" do artigo intitulado "Do antigo se faz novo" (da autoria de Olga Filina) lê-se: "A era do consumo a qualquer preço não durou muito na Rússia. Com a crise económica, os consumidores começaram a rejeitar o que é novo e a retomar hábitos ancestrais de reparar, transformar e criar".

A Paulinha foi sempre muito "práfrentex". A Paulinha é a minha heroína.

Da ganância

Dormirão bem, os promotores imobiliários, responsáveis camarários e quejandos, que autorizaram os desmandos urbanísticos na Madeira? E os outros, todos os outros que fazem o mesmo por esse país fora?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Dia da Internet segura


Absorvida com as minhas próprias (anti)comemorações, a saber: a desconstrução do Dia dos Namorados como mero incitamento comercial (que eu NADA tenho contra namoros) tive de ser alertada por quem sabe mais do que eu para a circunstância de hoje ser o dia da Internet segura.

De facto, tinha ouvido na Antena 1 um alerta dos técnicos da Microsoft para o facto de a maioria dos jovens, num momento ou noutro, ter fornecido dados confidenciais on-line a desconhecidos.
Curiosamente, há dias, em conversa com alunos que frequentam os cursos nocturnos cá na escola, tínhamos estabelecido um paralelo entre alguns contos infantis e os riscos que corremos. Falávamos, mais concretamente, da história "Corre, corre, cabacinha, corre, corre, cabação", em que a esperteza da neta da velhinha levava a palma aos inúmeros perigos que esperavam esta.

O mesmo poderia dizer do Lobo Mau, que consegue enganar o Capuchinho Vermelho... pois é. Na Net há muitos Lobos Maus disfarçados de velhinhas - e que nem a voz têm de disfarçar. Por isso, todo o cuidado é pouco - e nunca, mas nunca, teclem com desconhecidos.

"Marley e eu"

Estava eu muito sossegadinha no meu aquário, quando vejo entrar uma turma de nono ano. «Mau, mau...», pensei eu com os meus preconceituosos botões. «Lá se vai o sossego.»
Engano meu. Eles, o professor Joaquim Oliveira, a D. Lúcia e eu estivemos a ouvir atentamente o primeiro capítulo do livro Marley e eu, lido pela professora Isabel Pinheiro e pela Filipa Fernandes do 12ºL (muito bem acompanhada pelo Marcelo Barros).
Um momento de tranquilidade que me soube mesmo bem. Amanhã continuamos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Uma actriz séria


Ofereceram-me o Libération do dia 28 de Janeiro, integralmente ilustrado por autores de banda desenhada. Nele li um perfil da actriz francesa Emmanuelle Devos, que interpretou, entre outros filmes, o notável "Sur mes lèvres".

Falo-lhes nela porque, tendo decidido abandonar prematuramente a escola, a família não se lhe opôs. Os pais apenas colocaram uma condição: «Abandonne l'école, d'accord. Mais on veut te voir occupée toute la journée.» Emmanuelle assim fez: frequentou cursos, trabalhou, manteve-se ocupada. A actriz considera que essa exigência lhe salvou a vida.

Esta constatação faz-me pensar: às vezes, o que parece uma tragédia (para a maioria dos pais - ou poderes instituídos -, o abandono escolar) pode ser, desde que devidamente enquadrado, uma oportunidade. De repensar a vida (temos muitos alunos que frequentam o ensino secundário como uma indolência que não prenuncia nada de bom), de fazer coisas alternativas, que podem oferecer saídas profissionais assaz interessantes.
Hoje, talvez por estar um dia tão bonito, talvez por vir uma música tão sugestiva do Pavilhão Gimnodesportivo, talvez por me terem oferecido "Tout Libé en BD", estou muito benevolente. Deixa-me lá temperar isto com uns pozinhos de moralina, que é para vocês não estranharem: seja lá como for, esforcem-se, empenhem-se, trabalhem - nem que seja nas danças ;)

O(s) meu(s) pé(s) esquerdo(s)

Um dos filmes que mais me impressionou (e vi-o na televisão) foi «O meu pé esquerdo», que retrata a vida do escritor irlandês quadriplégico Christy Brown.
Tal deveria bastar para me impedir de dizer que tenho dois pés esquerdos, mas, na verdade, é essa (infeliz) expressão que me ocorre sempre que quero caracterizar a minha queda para a dança. Vinha ia a subir as escadas do Bloco C, e ouço a música latina que vem do Pavilhão Gimnodesportivo. Fico com inveja destes alunos, que têm acesso à prática de dança na escola, o que "no meu tempo" era impensável.
Mesmo que tenham os meus dotes inatos, se se esforçarem conseguirão atingir um nível aceitável - satisfação que me está vedada para todo o sempre.

E assim, com muita pena minha, limito-me a sorrir e a subir as escadas com mais ânimo do que o habitual...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Conta-me como foi

Em A escola do Paraíso, de José Rodrigues Miguéis, encontramos um longo excerto onde os dias que antecederam a proclamação da República são narrados do ponto de vista de uma criança - o que nos permite observar as motivações assaz pessoais que levavam uns e outros a escolher um dos lados (como o senhor Sepulcra, monárquico porque "funcionário das alfândegas d'el-rei nosso senhor").

Quando, após dois dias e dois noites em que "(...) o ar de Lisboa andou esguedelhado de tiros, o céu riscado de fogos-de-vistas singulares (...)" e a bandeira republicana é içada no quartel do Carmo, os habitantes do prédio onde vive a família do protagonista dividem-se de acordo com as suas simpatias políticas. Reparem neste excerto delicioso: "O prédio embandeirou, mas só do lado esquerdo, numa espécie de hemiplegia republicana".

A alegria, mesclada de oportunismo, destes tempos de mudança, é assim caracterizada:

"Começavam-se a vender na rua bandeiras, alfinetes, postais e globos de vidro colorido com cenas e retratos dos homens do regime. Era uma Vida Nova que raiava. Dir-se-ia que estava tudo preparado para a celebração! Passavam bandos aos vivas, caminho da Baixa, da Rotunda, do tejo, cantando a Portuguesa. Afluíam de todos os lados os heróis de última hora: as barricadas, até ali quase vazias, transbordavam agora de combatentes, eriçadas de armas que não tinham chegado a dar fogo. Tiravam-se grupos memoráveis, para depois se dizer «Eu também Lá estive!»"


O pai do protagonista, porém, é genuinamente republicano, e o capítulo 28 conclui-se com os filhos intuindo as diferenças entre convicção e acomodação:
"Então compreenderam que alguma coisa de grande e sério se passava: não era só festa, só vivas, só fogo-de-vista! E ficaram muito tempo calados, no escuro da noite, pensando no pai que chorava de alegria, até que o cansaço daquele primeiro dia da Vida Nova os venceu, e adormeceram."