segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Sexo, afectos & escola

«Eu não sou nada puritano», clamava um colega nosso, especado a meio das escadas do Bloco A. «Eu não sou nada puritano», repetiu, «mas aqueles meninos não deviam estar ali assim.» O assim era um casalinho, na bissectriz do pavilhão, muito coladinho e aos beijinhos. Já leram a banda desenhada da série Zits? "Richandamys", if you know what I mean...

Descemos as escadas a rir. O colega, o tal que não é puritano, é muito simpático e tem graça. E tinha também muita razão. Comentámos que, de facto, não deviam estar ali. O Carlos Drummond de Andrade dizia (noutras circunstâncias, por certo; e pudicamente resguardado por parêntesis) que "(O que se passa na cama / é segredo de quem ama)".

Curiosamente, como eu e a minha amiga somos Directoras de turma, já tínhamos abordado essa temática a propósito de uma circular relativa à implementação da Educação Sexual no Ensino Secundário. Defendia a minha colega que, a seu ver, os jovens não tomam precauções (leia-se: não usam sistematicamente preservativos) porque não assumem o desejo.

As raparigas, em particular, receariam ser consideradas levianas por abordarem essa questão ou tomarem iniciativas a ela conducentes. O resultado é do estilo bem "pior a emenda do que o soneto", ou seja, gravidezes indesejadas, doenças sexualmente transmitidas, uso e abuso da pílula do dia seguinte e ansiedades várias. Resolvemos ir consultar (informalmente) a professora Beatriz Santos, uma das três professoras da equipa PES (Equipa de Promoção e Educação para a Saúde), e esta aludiu a uma questão (muitas outras haverá, certamente) que não nos tinha ocorrido: o preço dos métodos contraceptivos.

Numa altura em que professores e alunos preparam as reuniões de conselho de turma, talvez seja boa ideia abordar essas questões numa perspectiva informada, consciente, assumida e, sobretudo, serena.

O romantismo é bom e nós gostamos, mas, se estiver na hora de tomar decisões, sejam pragmáticos. Quanto aos beijinhos, o exibicionismo é sempre de desconfiar...

Braga mexe


Às vezes sonho acordada, pensando nos dons que gostaria que me tivessem sido concedidos. Não quero ser ingrata: afinal de contas, aprendi a ler, a escrever e a fazer contas, conduzo sem grandes percalços e cozinho medianamente. Podia ser pior. No entanto, gostaria muito de cantar e de dançar... bem.

Outro dom que me faz muita falta, e que não possuo, é o da ubiquidade. Diz-nos "o Houaiss" que se trata da «faculdade divina de estar concomitantemente presente em toda a parte». Eu, simples mortal, contentar-me-ia em poder estar em dois sítios ao mesmo tempo. Hoje, por exemplo, gostaria de ir à sessão da Comunidade de Leitores, onde Alexandra Lucas Coelho apresentará, às 21h45m, no estaleiro cultural da Velha-a-Branca, o seu Caderno afegão; e de assistir ao concerto dos "Kings of convenience". "Em não podendo", recomendo-vos vivamente a leitura do livro e deixo-vos um excerto de uma das músicas dos "Kings of Convenience" de que mais gosto, "Failure" - que é também uma das minhas frases favoritas:

«Failure is always the best way to learn»

"La vie en rose"

O 10º E e o 10ºG visionaram um filme de Olivier Dahan, protagonizado por Marion Cotillard, que ficciona a vida da famosa cantora francesa Edith Piaf. O filme é mediano, mas a música, essa, é extraordinária. Por isso vos deixo duas canções dignas de serem enviadas para o espaço sideral e, por conseguinte, para o ciberespaço:



"La vie en rose"

e


"Je ne regrette rien"

O banquete














Como já devem ter reparado, a Biblioteca está a promover vários eventos relacionados com o cinquentenário (!) da criação da série Astérix. Na quinta-feira a Biblioteca organizou um banquete "gaulês" em honra dos 75 professores que vieram este ano para a escola pela primeira vez. Não compareceram muitos, o que foi uma pena - por um lado; pelo outro, houve iguarias "francófonas" com fartura para os que vieram, e as probabilidades de ganharem em sorteio o álbum especialmente editado para a comemoração aumentaram exponencialmente.

Em todo o caso, com ou sem banquete, saibam que são bem-vindos: à escola e à Biblioteca.

Perdidos & Achados

Na quinta-feira perdi os meus óculos escuros, que tanto me esforcei por não perder. Fazem parte de um longo rol de óculos (e guarda-chuvas) perdidos. Se alguém os encontrar, é favor entregá-los à sra. D. Lúcia. O ambiente, os meus olhos e o meu porta-moedas agradecem. Só o meu oculista é que não...
Em contrapartida, encontrei um monte de lixo nas escadas que dão acesso à Biblioteca. Nos últimos tempos, este troço de escadas tem sido utilizado como local de convívio. Não acho mal: os alunos (as pessoas) têm o direito de se apropriarem dos espaços e de fazê-los seus. Acho também que esta escola está a precisar urgentemente de remodelação, mas ela já vem a caminho e é fantástica. Já me parece muito - mas muito - mal, que os alunos deixem detritos nas escadas. É uma falta de respeito pelos seus colegas, que frequentam os mesmos sítios; pelos funcionários, que têm de limpar um lixo que não foi colocado nos recipientes apropriados; e pelos professores que sobem as escadas. Ou ainda pelos visitantes que, não raro, acodem à Biblioteca. Será um lugar-comum dizer que a escola é de todos e que é preciso respeitá-la, pero que lo es, lo es...

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Da inveja

Embora não me considere uma mulher invejosa, tenho de admitir que invejo certas coisas e até certas pessoas. Como são muitas, vou deixar este texto em aberto, para lhe ir acrescentando as minhas inúmeras dores de cotovelo.

1. Inveja tecnológica:
  • do blogue "Gaveta de nuvens". Quem me falou dele foi a professora Isabel Costa e eu ia ficando doente quando o li. Que sorte têm aqueles alunos, por terem um professor de Português tão dotado para as TIC!
  • das alunas Sara Pereira e Cátia Ferreira do 12º N. Orientadas pela professora Ana Margarida Dias (outra pessoa que me provoca graves "cotovalgias" nessa área), vi uns trabalhos espectaculares, do ponto de vista gráfico, com as personagens do Astérix.

2. Inveja temporal:

  • da família Portas. Toda. Ao que dizem, todos, pai (Nuno Portas) e filhos (Miguel, Paulo e Catarina) dormem pouquíssimo. Imaginem-me com a minha idade, tendo tido mais quatro horas por dia para ler e trabalhar...
  • das pessoas que têm tempo para fazer uma sesta todos os dias e podem fazer férias fora das pausas escolares.

3. Inveja de pessoas que podem ir trabalhar a pé.

4. Inveja de pessoas que podem ver os filmes da Cinemateca. Mais filmes, em suma.

5. Inveja das pessoas que vivem no campo, no meio do silêncio. Que têm fruta e legumes com bicho e, se precisam de salsa, vão colhê-la ao jardim. Basicamente, tenho inveja da nossa amiga Zé.

N.B. As invejas podem ser incompatíveis entre si, do estilo "ter o bolo e comê-lo". Afinal, isto é só um devaneio ante-aula)

6. Inveja das pessoas que têm uma postura corporal perfeita, como a nossa amiga Ana Cristina. Por isso é que eu passo a vida a corrigir os meus alunos: para que, quando forem adultos, não tenham inveja.

7. Inveja dos livros e filmes a que os nossos alunos têm acesso. "No meu tempo" havia muito menos acesso à cultura. E notem que não estou a falar de Internet.

8. (...) E vocês? Têm inveja de quê?

Mulheres perfeitas

Um dos Contos Exemplares mais exemplar de Sophia de Mello Breyner Andresen, para mim, é (por razões muito subjectivas) "Retrato de Mónica". O livro está aqui na Biblioteca, os contos são tão breves quanto fantásticos, leiam-no. Um conto por intervalo, por exemplo. É perfeitamente possível.
Mas volto ao conto, e a Mónica:

"Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do século XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria."

Mónica poderia ser, ou talvez seja, nas versões importadas de Hollywood ou produzidas localmente (Lux, Caras, Nova Gente, etc.) o modelo de muita gente. Assim uma Barbie intelectual-caridosa. No texto adverte-se para algo que essas revistas tendem a esquecer: "Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol."

Mas o que mais me importa reter neste texto notável é o excerto seguinte:

"De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito de negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo em cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias."

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra



Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra

(Carlos Drummond de Andrade)

A vingança do poeta

Ontem, folheando a Antologia Poética do brasileiro Carlos Drummond de Andrade, recentemente adquirida pela Biblioteca, deparei com uma nota final do Autor, que escapa aos discursos do costume. Ora leiam:

"Fui muito criticado e ridicularizado quando jovem. O meu poema «No meio do caminho», composto de dez versos, repete de propósito sete vezes as palavras «tinha» e «pedra», e seis vezes as palavras «meio» e «caminho». Isto foi julgado escandaloso; hoje o poema está traduzido em 17 línguas, e me diverti publicando um livro de 194 páginas contendo as descomposturas mais indignadas contra ele, e também os elogios mais entusiásticos. Achavam-me idiota ou palhaço (...)"

E termina: «Acho que a literatura, tal como as artes plásticas e a música, é uma das grandes consolações da vida, e um dos modos de elevação do ser humano sobre a precariedade da sua condição.»

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Não me façam falar! (II)

Por isso, decidi que não vou falar:
- da Maitê Proença (mas lá que o Salazar foi eleito - num concurso televisivo, bah - o grande português do século XX, foi; e que há muitos portugueses que cospem, há);
- das declarações polémicas do José Saramago;
- de coisas, porventura importantes, mas que não tenham directamente a ver com as minhas aulas. Pelo menos enquanto não me esquecer do que ouvi, na sexta-feira passada, à entrada do bloco A.

Não me façam falar! (I)

Na sexta-feira ia a entrar no bloco A e ouvi um aluno não identificado a dizer o seguinte: «O não-sei-quantos é o meu herói. Conseguiu que a professora de Filosofia ficasse uma hora a falar!» Eu desconfio que a escola está cheia de "heróis" destes. Acho até que conheço alguns. E fico a pensar que algumas das coisas mais importantes que aprendi na escola, nomeadamente com a minha querida professora de Francês, Maria Laura Macedo, não tinham directamente a ver com a disciplina. Eram aqueles espaços em que aprendíamos a ser, a pensar, a estar no mundo. Mas NÃO resultavam de uma armadilha estendida por alunos com intenções dúbias a docentes bem intencionados.


Pois não deverá um professor de Filosofia responder a uma pergunta de um aluno?! Mesmo quando essa pergunta não se enquadra directamente no ponto do programa que está a leccionar? Não poderá ou não deverá comentar uma tema da actualidade acerca do qual é questionado? A resposta é, sem dúvida, afirmativa. Porém, se esta resulta de uma manipulação, temos alunos que estão a boicotar conscientemente o trabalho do seu professor. São uns heróis, são. Da mediocridade.

Tristeza

Este blogue tem estado parado e triste. Não é por acaso.


POEMA DE FINADOS
Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão
(...)

(Manuel Bandeira)

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Campanha eleitoral na ESVV (IV)

Para concluir, espero:
As campanhas políticas, seja qual for a sua esfera (internacional, nacional ou local) devem ser conduzidas com elevação. Os programas devem ser pensados de forma realista, prevendo soluções concretas. Os eleitores devem saber o que está em causa e o que, verdadeiramente, distingue os candidatos. Após as eleições, devem exigir o cumprimento das promessas. E os eleitos ficam obrigados a promover e-f-e-c-t-i-v-a-m-e-n-t-e as condições de trabalho e estudo dos votantes envolvidos. E ponto final.

Campanha eleitoral na ESVV (III)

Volto ao livro A política explicada às crianças... e aos outros para transcrever uma parte que me parece particularmente pertinente nesta temporada eleitoral:



«A política não é mais do que a tua vida e a dos outros. É a forma como as pessoas se organizam para viverem em grupo. Afirmar "Eu cá não faço política" é o mesmo que dizer "Eu cá não respiro."
Ter uma opinião política é uma coisa fundamental. Não se escolhe uma opinião como quem escolhe a cor de uma gravata ou a marca de uns sapatos desportivos. Aliás, não se escolhe uma opinião.
É algo que existe no mais íntimo de nós próprios. É a forma como reagimos perante aquilo que se passa perante os nossos olhos, uma discussão, uma injustiça, uma manifestação de rua. Uma opinião é uma parte de nós mesmos. Se há algo que nos distingue dos animais, é justamente o facto de termos opiniões.
Por isso, deves bater-te decididamente pelas tuas opiniões. Não deixes ninguém sobrepor-se a ti, mesmo que isso te possa trazer alguns aborrecimentos. Não tentes imitar os outros. Pensa bem, sempre que tiveres de te pronunciar. Pesa bem os prós e os contras. Não vás atrás do que diz um amigo teu, só porque ele fala bem, porque é bom camarada ou porque outros fazem o mesmo. Não deixes que te "façam a cabeça", como é costume dizer. Não sejas como um catavento.» (pp. 25-26)
E o autor prossegue, enumerando num tom simples, sereno e didáctico, outros conselhos a seguir:
«Tu tens uma opinião, os outros são livres de ter a sua. Deixa-os falar. Ouve-os. Faz-lhes algumas perguntas. Se pensas que estão errados, tenta convencê-los. Mas se achas que têm razão, reconhece-o. Só os imbecis não mudam nunca de opinião. Se te provarem que estás enganado, seria estúpido teimares no teu erro.
Mas, sobretudo, não adoptes nunca uma opinião sem teres reflectido bastante. (...) Se, depois de teres reflectido, não tiveres opinião sobre um assunto, se, numa discussão, não souberes quem é que tem razão, di-lo também. Não é vergonha nenhuma fazer isso. Não adiras forçosamente à opinião da maioria. Nada prova que, só por serem muitos, estejam certos.» (p. 27)

Campanha eleitoral na ESVV (II)

Duas mãos amigas, duas, emprestaram-me o livro A política explicada às crianças... e aos outros, de Denis Langlois. O livro lê-se de uma assentada e tem umas ilustrações óptimas do desenhador francês, especializado em assuntos políticos, Plantu - cujo sítio oficial é fascinante.
Transcrevo uma parte do prefácio, que resume o que penso acerca da "coisa" política:
«A política não são só os discursos na rádio ou na televisão, os compadrios, as negociações, as promessas eleitorais: "Votem em mim e darei a todos um emprego. Elejam-me e conduzir-vos-ei ao paraíso.» É também a maneira como os seres humanos organizam a vida, os esforços que fazem para tentar criar um mundo no qual possam ser mais livres e mais iguais, no qual já não se olhem como inimigos mas como irmãos.
A política não é forçosamente uma coisa suja, que deve ser rejeitada. Para aqueles que são vítimas da miséria e da injustiça é também a esperança de uma mudança.
De qualquer forma, mesmo que não te metas com a política, a política mete-se contigo. Não se trata de um jogo (...) Haverá sempre gente a decidir por ti, a organizar a tua vida e a dos outros. É claro que podes deixá-los agir e limitar-te a ver o mundo a girar à tua volta, não intervir quando se comete uma injustiça, dizendo para contigo. "As desgraças dos outros não me dizem respeito." Mas será isso viver? Não será apenas existir como um vegetal?» (pp. 5-6)



Campanha eleitoral na ESVV (I)

Hoje a chegada à escola pareceu-me uma descida aos infernos. A campanha eleitoral começou e, com ela, o cortejo habitual: muita gente, muita excitação, papéis, décibeis, autocarros, tendas, balões, rebuçados, flores.
Tive mais dificuldade em ler os programas das listas, embora seja uma leitura digna de se fazer. Fiquei perplexa com certas promessas. A meu ver, são totalmente irrealizáveis. Numa breve sondagem, perguntei a algumas pessoas o que é que as Associações de Estudantes têm feito pela escola. Só me falaram em bailes e viagens de finalistas.
Eu própria tenho uma experiência díspare, a de um representante dos delegados de turma no Conselho Pedagógico que desmobilizou à primeira e de uma delegada que participava activa e construtivamente, defendendo os alunos que representava de forma assaz pertinente.
Por isso, antes de votar, leiam os programas e questionem-se acerca das reais intenções dos elementos das campanhas. E, depois, "monitorizem" as promessas que vos foram feitas.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Dia Mundial da Alimentação





Com tanta moralina, já me esquecia das nossas "boas práticas".
Na sexta-feira cheguei ao Bloco A e deparei com duas mesas cheias de bolos apetitosos (todos eles confeccionados com frutos frescos ou secos), chás de ervas e maçãs. Abasteci-me logo, e fiquei a admirar o à-vontade das alunas que participaram neste projecto. Além da Alzira Dias (que já conheço porque é uma assídua frequentadora da Biblioteca), também as outras meninas demonstraram uma atitude... deixem-me dizer isto... assertiva. Ainda gostei mais do que dos bolos.


Antídotos contra a TDACHSR

Parafraseando o Júlio Machado Vaz, "ora vamos lá ver se nos entendemos":
1. De acordo com José Pacheco Pereira, ainda estarão imunizados contra este vírus os que foram expostos a «(...) algum silêncio, algum tempo lento, alguma prevalência da leitura sobre a televisão, ou apenas a televisão e os jornais, mas tudo ainda muito devagar e pouco "interactivo".»
2. Inocular-se-ão deliberadamente contra este vírus os detentores do verdadeiro poder. Ora leiam: «O vírus da TDACHSR produz uma rede muito complexa porque emaranhada, mas é incapaz de gerar uma seta, uma direcção, um sentido, um significado. E produz uma memória curtíssima, uma presentificação absoluta, uma incapacidade de lembrar tempos, e de os comparar. Pode-se "ler" nesta "nuvem"? Poder pode, mas fora dela. É o que fazem os poderosos que se colocam noutro lugar. Atentos. Sem deficit de atenção. Com memória. Focados. No "ponto".»
Pacheco Pereira é por vezes acusado de ser demasiado pessimista. E embora eu concorde que - como diria o Mário de Carvalho - nunca se deve confundir o Manuel Germano com o género humano, julgo que estas palavras nos deviam interpelar.

Educação cívica

Correndo o risco de este blogue ser uma espécie de satélite do Público, desta feita é o artigo de Sábado de Pacheco Pereira (JPP) que nos chama a atenção. Em primeiro lugar, pelo título longuíssimo : "Transtorno do déficit de atenção cívica com hiperactividade social em rede (TDACHSR)".
Transcrevo um dos passos deste artigo, que me parece muito pertinente numa altura em que receio que os soundbytes da campanha para a Associação de Estudantes não sejam acompanhados por programas devidamente pensados e, depois, por uma atitude participativa por parte dos alunos que vierem a ser eleitos:
«Chegada às escolas, a doença começa de baixo para cima, nos mais novos, e está em plena força nas "novas gerações" e nas ex-"novas-gerações". Ou seja, está a fazer-se cada vez mais forte quando essas gerações hoje infantes chegarem à vida cívica, ou seja, a partir do momento em que começam a escrever umas banalidades arrogantes em qualquer sítio da Rede, quando passarem do SMS no telemóvel para o Facebook e o Twitter. Comunica-se também um pouco para os "mais velhos", mas não é ainda dominante. Estes ainda mantêm um certo arcaísmo social, alguma "atenção", porque ainda conheceram na sua juventude algum silêncio, algum tempo lento, alguma prevalência da leitura sobre a televisão, ou apenas a televisão e os jornais, mas tudo ainda muito devagar e pouco "interactivo". Ainda prezam a sua privacidade, outro dos bens que se estão a tornar escassos por uma geração que acha normal ter localizadores nos telemóveis e começar qualquer conversa por "Onde estás?". E não lhes passaria pela cabeça colocar fotografias em poses obscenas no hi5, ou dizer "onde estão" de meia em meia hora no Twitter.
O que é que caracteriza esta TDACHSR? Uma completa falta de atenção ao que é relevante, cultural, social, económica, politicamente, uma enorme dificuldade de identificar o "ponto" e de ir ao "ponto". Pelo contrário, manifesta-se por uma imersão numa multidão de "pontos", todos igualmente dispersos, todos igualmente irrelevantes. Uma enorme dificuldade em aprender, porque nunca se está no mesmo sítio, nunca se está calado, nunca se pára de mexer, nunca se desliga o telemóvel, nunca se sai de frente de écrãs, televisão e computador, nunca se deixa de falar, de "twitar", de enviar SMS, nunca se deixa de receber "tweets" e SMS, fotografias, sons, vídeos, alguns, poucos, textos.»
Moralina, sim - mas desta vez não é minha...

Quem sabe, sabe

Na Sexta-feira fiquei roída de inveja. Li o Público e, na rubrica diária do Miguel Esteves Cardoso (MEC), lá vinha a designação, o nome justo, o nome certo, para a Agustina Bessa-Luís: génia. É isso que a senhora é, uma génia.
Em latim existe uma expressão, genius loci, que, levianamente traduzida, seria algo como o génio (o espírito, a alma) do lugar. No romance Howards End, E. M. Forster atribui a uma propriedade rural inglesa uma alma, confiada a uma guardiã e transmitida de geração em geração - embora não na mesma família. Assim, o genius loci do campo português (com as suas inúmeras extensões na cidade) teria esta guardiã que é, simultaneamente, uma escritora de génio.
A escrita de Agustina flui de forma misteriosa, iluminando o que não sabemos, dizendo-nos o que não queremos saber mas que não podemos evitar. Os génios incomodam, e Agustina incomoda.
Pressentimos, pois, outra acepção no nome justo que MEC lhe atribui: algo a que por vezes se chama mau génio, não dissimulado por diplomacias, punhos de renda, delicadezas, subtilezas.
A civilização é uma coisa boa? Será, mas algo se perde quando esquecemos o chão que pisamos, quando cortamos as árvores, quando ignoramos a água que corre sob o asfalto. Quando esquecemos que, mais tarde ou mais cedo, ela encontrará um caminho alternativo e inundará tudo outra vez.