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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ainda a comunidade de leitores da ESVV

A comunidade de leitores dedicada a O alienista de Machado de Assis teve esta virtualidade (inerente à cultura) de suscitar mais e mais questões. Bem assim para a figura de Maria Adelaide Coelho da Cunha, que foi objecto de um livro de Manuela Gonzaga, Doida, não e não!





No blogue http://leiturasdasmarias.blogspot.pt/, encontrei um texto assaz elucidativo acerca desta obra - e da personagem real que a motivou:

 
«Sinopse: Filha e herdeira do fundador do 'Diário de Notícias'. Mulher do administrador do mesmo jornal, o escritor Alfredo da Cunha. Presa num manicómio por um «crime de amor». Os factos relevantes têm início em Novembro de 1918: era uma vez uma senhora muito rica que fugiu de casa, trocando o marido, escritor e poeta, por um amante. Tinha quarenta e oito anos, pertencia à melhor sociedade portuguesa. O homem por quem esta senhora se apaixonou tinha praticamente metade da sua idade e fora seu motorista particular. Era herdeira do 'Diário de Notícias' e a sua história chocou a sociedade da época.

(...) Quando no dia 13 de Novembro de 1918, Maria Adelaide Coelho da Cunha saiu de casa para não mais voltar nunca pensou no desfecho que a sua fuga iria tomar. Santa Comba Dão acolheu o amor desta dama da sociedade pelo seu antigo motorista, Manuel Claro, mas poucos dias depois do seu desaparecimento o seu marido, Alfredo da Cunha, decide colocar um anúncio no jornal de que era administrador “Diário de Notícias”.

Maria Adelaide tinha abandonado um casamento de 28 anos com Alfredo da Cunha, e um filho, José Eduardo Coelho da Cunha de 26 anos, licenciado em Direito. «Tinha 48 anos e era uma figura incontornável na vida social lisboeta e o casal era apontado como exemplo de harmonia conjugal».

«Enquanto casada, Maria Adelaide tinha uma vida social intensa. Além de conviver bastante, viajava muito também com o marido por vários países da Europa ver peças ou teatro e locais históricos».

No entanto, segundo alguns testemunhos de amigos, familiares e criados, a partir de 1917, Maria Adelaide sofreu uma grande mudança de atitudes.

Após 11 dias de ter fugido para Santa Comba Dão é descoberta pelo marido e pelo filho e acaba por ser levada para o Conde de Ferreira, no Porto, onde foi diagnosticada como louca. Naquela instituição Maria Adelaide passou a ficar constantemente vigiada e mesmo uma carta teria de passar pela «pela censura da Direcção, acrescentara-lhe o “salvo conduto – umas palavras de louvor ao modelar Conde de Ferreira”, porque a única forma das cartas seguirem “é dizer bem do hospital”».

Entretanto, Maria Adelaide consegue passar estas palavras, de uma forma camuflada, a Manuel Claro, sobre as condições com que a puseram no hospital psiquiátrico.

«Imagina que não me fizeram nenhum exame médico para aqui me meterem; mas o dinheiro pode tudo e a prova está à vista. É preciso que desconfies de tudo e de todos em toda a parte e principalmente do Balbino Rego que teve tudo isto um papel de miserável, como depois de contarei…”»

Não era de admirar. O decreto de 11 de Maio de 1911 dizia que qualquer pessoa poderia requerer o internamento de outra no manicómio, desde que apresentasse o atestado de dois médicos e um exame de Júlio de Matos. E assim foi. Maria Adelaide foi internada no Conde de Ferreira e «arcou com um diagnóstico de loucura que lhe foi aposto com assinaturas de Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid». Depois disso ainda viria a perder todos os seus bens.

«Em silêncio deixou-se conduzir ao pavilhão das criminosas. Era o dia 26 de Fevereiro de 1919. Durante uns brevíssimos e felicíssimos 23 dias fora a “rapariga de Manuel”.

Agora voltava a ser uma louca.»

Durante oito meses, Maria Adelaide permanece no manicómio e, só mais tarde, em praça pública, é que decide contar o seu «crime de amor». Manuel Claro também estivera preso, na Cadeia da Relação, no Porto, durante praticamente quatro anos.

Mas o amor superou tudo. Maria Adelaide viria a morrer na sua casa, no Porto, no dia 23 de Novembro de 1954, com 85 anos. Manuel Claro morreria em 1967, vítima de cancro. Viveram juntos mais de 30 anos, sem nunca terem casado.



Esta história surpreendente, que me deixou sem fôlego tal o enredo que a própria autora, Manuela Gonzaga, tão bem urdiu, surgiu através dos actuais donos do palácio de São Vicente, que em 2003 descobriram que de um fundo falso de uma pesada secretária, surgiu «um precioso acervo de minutas de cartas, bilhetes e notas enviadas a quem privou com o casal (Maria Adelaide e Alfredo da Cunha) – amigos, familiares e antigos serviçais do palácio - , a quem se pedia depoimentos sobre os tempos felizes de São Vicente. Também ali se encontravam relatórios e pareceres fundamentados nos exames psiquiátricos feitos a Maria Adelaide e assinados pelos mais ilustres professores da especialidade…E, ironia amarga, ali estava também o seu lacónico bilhete, escrito em Santa Comba Dão, e colocado nos correios de Aveiro, conhecido como «a carta do lacre verde»».

Um excelente relato da história que, além de contar todas as peripécias pelas quais passou o casal de apaixonados, ainda centra a vida de Maria Adelaide no contexto história em que ela viveu. Um livro que recomendo a todos os amantes da história de Portugal no início do século XX e de como as mulheres eram tratadas caso não ‘obedecessem’ às regras estipuladas.

Esta linda história de amor também já tinha servido de mote a Monique Rutler, que realizou o filme Solo de Violino, em 1992, cujos protagonistas foram André Gago, no papel de Manuel Claro e Fernanda Lapa no papel de Maria Adelaide. «O filme viajou pelo mundo inteiro, estando presente em numerosos festivais nomeadamente em Nova Iorque, Cannes, Berlim, Cairo e Florença», mas infelizmente não está disponível em circuito comercial, «e a RTP passou-o duas vezes apenas nestes anos todos. O mesmo se pode dizer da banda sonora, com assinatura de Constança Capdville».





sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A comunidade de leitores foi ao Centro Hospitalar Psiquiátrico do Conde de Ferreira...

... e, mau grado termos regressado um pouco impressionadas, gostámos muito. O pretexto, como sabem, era a leitura do "Alienista" de Machado de Assis. Mas a visita revelou-se um achado a vários níveis: arquitectónico, histórico, literário, científico, humano...
 

Cada uma de nós encontrou um (ou mais) ponto de interesse. Todas nos confrontámos com as nossas ideias pré-concebidas acerca da doença mental e dos seus tratamentos (quem não se lembra de "Voando sobre um ninho de cucos"?).

Admirámo-nos (talvez nos tenha vindo à mente a palavra "expiação") com o facto de o Conde de Ferreira ter ganho a sua fortuna com o tráfico de escravos. Relembrámos o poeta Ângelo de Lima (e ficámos a saber que foi a doença que lhe inspirou tantos neologismos, de entre os quais emerge a palavra "cintilar"). Espantámo-nos com o caso de Maria Adelaide Coelho da Cunha, internada por motivos totalmente alheios à loucura. Arrepiámo-nos com a lobotomia que Egas Moniz fez ao seu amigo Raul Proença. Lamentámos a riqueza das publicações adquiridas ao longo de centenas de anos, e com o facto de a sua aquisição estar agora, por razões orçamentais, suspensa. Vimos camisas de forças, observámos os planos de banheiras especiais e, sobretudo, tivemos pena do panóptico maior, arrasado para dar lugar à Via de cintura Interna. Arrepiámo-nos com o panóptico pequeno e com as suas implicações. As fotografias de alguns internados interpelaram-nos de uma forma inexplicável...
 
E fizemos um exercício de relatividade histórica: quantas das nossas prática actuais não serão, no futuro, consideradas bárbaras?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

"O amor acontece"... e os dislates também

No sábado, de telecomando em riste, deparei com uma passagem da comédia romântica "O amor acontece", onde um escritor britânico se apaixona pela sua mulher-a-dias portuguesa. O facto em nada me incomodaria, não se desse o caso de a sequência do filme traçar um quadro devastador de uma suposta realidade nacional.
Conheço vários filmes em que os portugueses - as portuguesas - surgem, e nem todos pelas melhores razões. Um dos meus filmes de animação favoritos, "Belleville rendez-vous", tem como personagem principal Mme Souza, uma porteira coxa, baixa, feia, de óculos, com buço e de puxo. Mas o cliché visual funciona como mero apontamento humorístico, quase um contraponto à excelência "humana" da personagem.

Também no filme "Nada meiga" (em exibição no Bragashopping até dia 20 de Fevereiro) surge uma mãe portuguesa, que fala compulsivamente e em voz muito alta - e mima excessivamente o filho. No entanto, além de haver muitas portuguesas que correspondem a este perfil (muitas gregas, muitas francesas, muitas norteamericanas, muitas italianas, muitas senegalesas), não há uma exploração deliberada de apenas uma faceta de uma nacionalidade.

Já em "O amor acontece", os portugueses parecem todos feios, porcos e tontos. Quando o escritor vem a Portugal pedir Aurélia em casamento, o pai desta, de aspecto miserável, abre-lhe a porta de camisola interior. Acontece. Pior é o diálogo que entabula com a outra filha (feia, gorda, desleixada - mas acontece): boçal até dizer chega. Infelizmente, acontece. Mas alguém acreditaria que uma multidão seguisse os dois até ao restaurante onde Aurélia trabalha, fosse lançando comentários pela rua fora, dissesse tamanha quantidade de disparates?! Não, o que ali temos é um retrato em pseudo-mosaico, um mural, de todo um país, em que a personagem interpretada por Lúcia Moniz seria uma excepção. Por mim, proibiria a exibição do filme em Portugal. Fazer rir com piadas de um nível tão rasteiro releva da pura e simples falta de nível (e de talento).

Esta conversa fez-me lembrar um filme maravilhoso de Mike Leigh, intitulado "Segredos e mentiras", onde estas problemáticas (xenofobia, mas também racismo, diferenças culturais e sociais) são tratadas com uma sensibilidade rara. Se algum vez o virem (no clube de vídeo, na televisão), aproveitem.