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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O Mundo em cinco versos



 
Vermeer
Enquanto essa mulher do Rijksmuseum
com essa calma e concentração pintadas
continuar a verter, dia após dia,
leite da jarra para a taça
não merecerá o Mundo
o fim do mundo.

Wislawa Szymborska

sábado, 21 de setembro de 2013

Dorcas Gustine

As pessoas da vila não gostavam de mim,
porque eu dizia sempre o que pensava
e também porque atingia abertamente, com protestos,
aqueles que me atacavam, sem ocultar a mágoa
ou alimentar o rancor.
Louva-se muito o acto desse rapaz espartano
que escondeu sob a sua túnica um lobo,
deixando, sem um único lamento, que este o devorasse.
Eu penso que há mais valentia em agarrar o lobo
e combatê-lo abertamente, mesmo em plena rua,
por entre a poeira levantada e os uivos de dor.
A língua pode ser desordeira,
mas o silêncio envenena a alma.
Quem quiser, que me censure ─ eu estou satisfeito.


edgar lee masters
spoon river
tradução josé miguel silva
Relógio d´água
2003
 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Coisas

COISAS
 
Pratos de faiança, usados,
De onde o branco se escapa,
Viestes novos
Para nossa casa.

Aprendemos imenso
Desde esse tempo

Guillevic

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Nuno Júdice, uma seleção da Ana Paula Matos


Lusofonia

rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.

Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada
no café, em frente da chávena do café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar
o atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga
do café. A solução, então, é mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.
...
In A Matéria do Poema, Publicações Dom Quixote, Lisboa

sábado, 13 de abril de 2013

Manhã de Sábado

Gato em apontamento quase barroco e de manhã de Sábado


Gentilmente curvado sobre a flor,
Percorre devagar nervura e centro.
E em tantos delicados argumentos
Vai avançando lentamente as folhas.

A cabeça pondera e repondera
Defronte a haste fácil, rente a terra,
E uma pedra minúscula e serena
Sobe no ar, acesa como fera.
Não conhece os segredos do soneto,
Sendo de ofício muito ignorado
A sua arte. E em curto minuete:

Uma garra afiada em pé de valsa,
Um dente a desdenhar a flor e a folha
E a cravar-se, feroz, na minha salsa.


Ana Luísa Amaral

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Manuel António Pina "Na Biblioteca"

NA BIBLIOTECA

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,
as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’

In
Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, 2011

sexta-feira, 15 de março de 2013

A defesa de Natália Correia

A Defesa do Poeta
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.

Queixa das Almas Jovens Censuradas


Queixa das almas jovens censuradas
Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.



Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999
 
A versão de José Mário Branco: http://youtu.be/aLxhA-25k_k

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Passos de astronauta


 
O ASTRONAUTA

As estrelas e equações na madrugada
tecem a rede de uma aranha negra
que mastiga os ossos da noite.
Por cima da escola voava um avião comercial,
deixando no céu uma cicatriz de fumo
que dizia: “Eu quero ser Neil Armstrong”.
Eu levava no bolso um roteiro
para sair da atmosfera
e desenhar outro bairro no cosmos.
Mas as recordações felizes funcionam
apenas como recordações felizes:
hoje ensaio passos de astronauta
só para atravessar a rua.

Marcelo Daniel Díaz

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Buscar-se no vento, encontrar-se no mar

Eu me perdi na sordidez dum mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar
 
Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Caminhar junto até à água



 
não são as luzes nem os animais
o esplendor
nem as mudas palavras onde a voz
difusa se separa

caminharemos junto à água, até
ao recordar dos promontórios,
ao olhar
a invenção do inverno

e recolhidos
no brusco ardor dos
anos breves

ouvindo cintilar
a frívola passagem
dos sinais

António Franco Alexandre

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Prefiro "A casinha do ursinho Puff"





A MÃO



Vinte e sete ossos,

trinta e cinco músculos,

cerca de duas mil células nervosas

em cada uma das pontas dos cinco dedos.

É quanto basta

para escrever Mein Kampf

ou A Casinha do Ursinho Puff.

(Wisława Szymborska)





[in http://bibliotecariodebabel.com/tag/wislawa-szymborska/]

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A escola, como uma casa



 
Famílias felizes e famílias infelizes

Se todas as famílias felizes são iguais,
também o são todas as famílias infelizes,
cujas vidas celebramos
porque estão cheias de movimento e ardor,
porque elas são aquilo que pensamos que a vida é.
Alguém mente e alguém está a ser
vítima de mentira. Alguém é agredido
e alguém é o sujeito da agressão.
Alguém reza, ou chora
porque não sabe como rezar.
Alguém bebe durante a noite;
alguém se encolhe nos cantos;
alguém ameaça e alguém suplica.
Palavras azedas à mesa,
soluços amargos no quarto;
represálias surdas no espelho da casa de banho.
A casa estala com segredos;
todos preparam o seu plano de fuga.
Alguém se desmorona sem produzir um som.
Às vezes, alguém sai de casa
numa maca, num silêncio terrível.

Quanta energia gasta em sofrimento!
É como um fogo que arde sem parar
mas não consegue arder até ao ponto da sua extinção.
As famílias infelizes nunca são indolentes;
estão sempre em acção,
ao contrário das outras, as felizes,
aquelas em que nunca se levanta a voz
ou se cospe sangue, aquelas que nunca
fizeram nada para merecer a felicidade que têm.

Lisel Mueller

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Assim chega o viajante à tardia idade / em que se confundiram ele e o caminho


O REGRESSO


Como quem, vindo de países distantes fora de

si, chega finalmente aonde sempre esteve

e encontra tudo no seu lugar,

 o passado no passado, o presente no presente,

assim chega o viajante à tardia idade

em que se confundem ele e o caminho.


Entra então pela primeira vez na sua casa

e deita-se pela primeira vez na sua cama.

 Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,

cidades, estações do ano.

E come agora por fim um pão primeiro

sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.


Como se desenha uma casa (Lisboa: Assírio & Alvim, 2011)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Sem pressas, folhas mortas



 



Não me mostres nenhum norte

nem estradas para lá:

são tudo embustes.



Mostra-me antes pedras, folhas mortas

de Outono atapetando o chão das matas,

voos de libelinha rasando o sol poente,

cândidas risadas infantis.



Quero eu dizer: mostra-me coisas

daquelas que se corrompem sem pressa.    
(A. M. Pires Cabral)   In http://toutinegraboinapreta.blogspot.pt (with a little help from my Centro de recursos)



terça-feira, 25 de setembro de 2012

Ouve como soam nesta página...

... as promessas que me envia pela manhã...

A CHUVA NO DESERTO



Sob a indiferença e o enfado
oculta-se uma emoção por explorar.
Aí onde há roupa estendida, pratos
sujos, despertadores queixosos,
carros que nos esperam, auto-estradas
inúteis que conduzem ao trabalho,
ao choro de um telefone, aos gestos
vazios que nos estende o hábito,
também rompe o feitiço da luz,
a sua voz debaixo da pele flui devagar.
Ouve como soam nesta página
os seus corcéis de vento, as suas promessas.





Eduardo García

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A pequena foca da rentrée

ORGULHO

Digo-te, até as rochas se partem,
e não é por causa do tempo.
Durante anos mantêm-se deitadas de costas
no calor e no frio,
durante tantos anos
isso quase parece pacífico.
Não se mexem, por isso as fendas permanecem escondidas.
É uma espécie de orgulho.
Os anos passam sobre elas, e elas aguardam.
Seja o que for que venha despedaçá-las
ainda não chegou.
E assim o musgo cresce, as algas
chicoteiam à sua volta,
o mar avança sobre elas e retrocede -
as pedras parecem imóveis.
Até uma pequena foca vem esfregar-se contra elas,
chega e vai-se embora.
E de súbito a rocha tem uma ferida aberta.
Eu disse-te, quando as rochas se quebram, isso acontece de surpresa.
Tal como as pessoas.

Dahlia Ravikovitch em arspoetica-lp.blogspot.com/

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Esplendor sob as árvores



SONETO EM BUSCA DE UM AUTOR



Os corpos nus como troncos sem casca
exalam às vezes um odor tão
doce, homem e mulher
debaixo das árvores loucamente

em harmonia com o tapete de
aromáticas folhas de pinheiro
bordadas com videira virgem
disso poderia fazer-se um soneto


Disso poderia fazer-se um soneto! louco odor
odor de agulhas de pinheiro, odor de
troncos sem casca, somente odor
de videira virgem que


não sem odor, odor de mulher nua
por vezes, odor de homem



William Carlos Williams

In http://bardoblanca.blogspot.pt/2009/02/sonnet-in-search-of-author-nude-bodies.html (30/5/2012)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Oh, as árvores, as árvores

Somos folhas breves onde dormem


aves de sombra e solidão.

Somos só folhas e o seu rumor.

Inseguros, incapazes de ser flor,

até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos

cada ave se transforma noutro ser.

(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Oh as árvores, as árvores

AS ÁRVORES

 

Falam pouco as árvores, é sabido.
Passam a vida toda a meditar
e a mexer os ramos.
Basta olhar para elas no Outono
quando se juntam nos parques,
só conversam as mais velhas,
as que partilham as nuvens e os pássaros,
mas a sua voz perde-se nas folhas
e chega-nos muito pouco, quase nada.
É difícil encher um livro, mesmo breve,
com pensamentos de árvores.
É tudo vago nelas, fragmentário.
Hoje, por exemplo, ouvindo o grito
de um tordo negro, no caminho para casa,
grito final de quem não espera outro verão,
eu percebi que pela sua voz falava uma árvore,
uma entre tantas,
mas não sei o que fazer com esse grito,
não sei como apontá-lo.

(Eugenio Montejo)