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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Dizer m**** num blogue escolar I



Os franceses resolveram muito bem esta questão: socorrendo-se de uma história cuja veracidade está por atestar, inventaram o eufemismo "mot de Cambronne", isto é, a palavra que o general Pierre Cambronne terá dito ao seu homólogo britânico quando este o mandou render-se. Eu própria, que nunca digo palavrões, permito-me dizer "merda" quando quero desejar sorte a alguém que vai fazer uma apresentação oral.´"É gíria teatral", digo eu à laia de desculpa.
 
Apesar dos meus pruridos, ontem deliciei-me com a peça com que a TVI ilustrou, no telejornal, o carácter e a vitalidade de Oscar Niemeyer. O meu querido centro de recursos enviou-me hoje de manhã a transcrição. É assim:
 
«A minha arquitetura não é uma solução pra arquitetura, é a minha arquitetura. Assim como na pintura a gente tá de acordo de que não existe a pintura antiga e moderna, existe a boa e a má pintura. Na arquitetura é a mesma coisa. O ideal é cada um procurar o seu caminho e fazer o que gosta. Eu confesso a você que eu tô um pouco cansado de falar de arquitetura. Porque as coisas se repetem, a conversa é a mesma, as perguntas são as mesmas. Mais importante do que a arquitetura é estar pronto pra protestar e ir na rua, isso que é importante, é o sujeito se sentir bem, sentir que não é um merda, que ele tá ali pra ser útil...»

 
 
Quando for (mais) velha, quero ser assim: coerente e desbocada. Uma sábia.


Já agora: o endereço da Fundação Oscar Niemeyer.

Obituário: Oscar Neimeyer

Ninguém queria que eu fosse a Brasília, mas para mim estava fora de questão ir ao Brasil e não ir a Brasília. Afinal de contas, era um projecto utópico em que a arquitectura desempenhou um papel central.

 
 
 
Embora tenha visitado Brasília a pé - o que ninguém faz, a minha intuição confirmou-se: adorei a cidade monumental...
 
 
 
... mas também os bairros projectados pela parceria Lúcio Costa/Oscar Niemeyer para os habitantes. Belas "quadras" (quarteirões) arborizadas, com prédios inspirados por Le Corbusier, isto é, com a parte inferior suportada por "pilotis", permitindo uma leitura contínua das áreas ajardinadas.
O que me parece (leiga como sou) notável em Niemeyer é a depuração e simplicidade do traço, que depois é sustentada na atenção aos pormenores. Uma perfeição quase mística.
 

Há dois anos visitei um Centro Cultural de Avilés (Espanha), projectado por Niemeyer. De idade avançada, sem ter nunca visitado o local da obra, desenhou isto:


 


domingo, 16 de setembro de 2012

A arte saiu à rua num dia assim

 


No entanto, esta fotografia foi tirada no interior da Fábrica Asa, em Guimarães.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Da inveja, de uma imensa e profunda inveja

Na interrupção da Páscoa, fui à Escola Básica 2,3 de Viatodos com uma amiga que estava a preparar uma exposição. Como sempre nestas alturas, o clima era de efervescência e andava tudo em bolandas. Aproveitei para deambular por ali e, quando consegui falar com a minha amiga, perguntei-lhe se a escola tinha sido intervencionada. De facto, embora fosse igual a muitas das escolas onde trabalhei, aquela era diferente: limpíssima. As estantes de pinho como as que temos cá na escola não tinham uma escanadela, estavam enceradas, com o conteúdo dos expositores em perfeita ordem. Havia armários recuperados, outros aparentemente desenhados de propósito: o lavatório da cantina, a bancada do quarto de banho feminino... A biblioteca tinha um aspecto óptimo, embora não padronizado. Os jardins, simultaneamente elegantes e displicentes, pareciam exigir uma manutenção mínima (aparentemente inspirados nos jardins "à inglesa").
A sala de professores, misturando mobiliário igual ao nosso com outro (heteróclito mas cuidado), tapetes, quadros de bom gosto, intrigou-me particularmente. Não conseguia perceber se a Parque Escolar tinha andado por ali ou não. Parecia-me que não, mas nunca tinha visto tanto gosto e aprumo num estabelecimento de ensino público.
A minha amiga riu-se de mim. Que não, que a escola não tinha tido obras. Mas tem um professor encarregado pela manutenção que zela cuidadosamente pot todos os espaços. Contou-me até um episódio em que ele estipulou um prazo para os colegas arrumarem os seus pertences. No dia combinado, tudo o que não tinha sido removido ou arrumado foi para o lixo: livros, papéis importantes, recibos, bilhetes de avião, tudo!
Contei tudo isto a um meu amigo arquitecto. Por coincidência, a tia dele trabalhava em Viatodos e ele também lá tinha ido. Contou-me que muitos dos móveis que me tinham encantado tinham sido comprados em lojas de segunda mão e recuperados.
Conclusão e moral da história: a arte está em fazer omoletas com ovos de codorniz.

Assim saibamos nós, que vamos receber uma escola novinha em folha, de um gosto irrepreensível, mantê-la cuidada, com um aspecto limpo (no sentido de "clean"), sem arrebiques nem ademanes.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Pensar é a maior de todas as transgressões

A prova de que Murray Ringold - apesar das suas dúvidas e perplexidades, apesar do seu remorso pelo facto de a mulher ter morrido por culpa da sua teimosia em manter-se em Newark, foi bem sucedido - é que é graças ao seu professor de literatura que o narrador de Casei com um comunista se torna um romancista reconhecido.

Não é por acaso que a obra se inicia, justamente, com uma alusão a esta figura: "Murray, o irmão mais velho de Ira Ringold, foi o primeiro professor de Inglês que tive no liceu (...)" e continua nestes termos: "(...) sentia-se, no sentido carreirístico do termo, a vocação de um professor como Murray Ringold, que não se tinha perdido na amorfa aspiração americana de chegar ao topo (...). [Murray] tinha escolhido como norma de vida ser nosso."

Reparem que não há ilusões na forma como os alunos o encaravam "Não que a impressão deixada no meu conceito de liberdade pelo seu arrojado estilo pedagógico fosse aparente na altura; nenhum miúdo pensava assim a respeito da escola, dos professores ou mesmo de si próprio. No entanto, uma ânsia incipiente de independência social deve ter sido de alguma forma alimentada pelo exemplo do Murray (...)", um professor para quem "pensar é a maior de todas as transgressões".

Não é Murray Ringold quem quer, mas ter um professor assim no horizonte não é, a meu ver, mau. E é consolador...

As melhores intenções

O dilema de Murray é assim comentado pelo narrador:

"Era a isto que o tinha conduzido agarrar-se às suas convicções, resistir à tirania dos compromissos. Se há alguma esperança de melhoria de vida, onde há-de ela começar senão na escola? Irremediavelmente enleado nas melhores intenções, tangivelmente comprometido, para toda a vida, com um percurso construtivo que é agora uma ilusão, com formulações e soluções que já não levam a nada."
Às vezes sentimos isto mesmo, damos razão a professores como a Aurora Estela, quando acusa alguns de nós de sermos "líricos". Mas prefiro, apesar de tudo, a conclusão do narrador de Casei com um comunista:
"(...) temos de perguntar a nós próprios, a cada passo, «porque faço eu o que faço?» E temos de nos autolerar, mesmo sem saber a resposta."

A traição da escola

Num dos meus livros preferidos de Philip Roth, Casei com um comunista, uma das personagens é um professor chamado Murray Ringold. Sempre me impressionaram as passagens que dizem respeito a este docente de literatura, que se mantém em Newark contra tudo e contra todos, por idealismo e convicção:

"Passei lá os últimos dez anos antes de me reformar. Não conseguia ensinar nada a ninguém. Quase não conseguia controlar os desmandos, quanto mais dar-lhes aulas. A disciplina... era esse o busílis da questão. Disciplina, patrulhar os corredores, repreendê-los até algum miúdo se atirar a nós, expulsões. Os piores dez anos da minha vida (...) Mas fui toda a vida um dos agitadores do sistema educativo de Newark, não fui? Os meus antigos colegas diziam que eu era maluco. Nessa altura eles estavam todos nos subúrbios. Mas como é que eu podia fugir? Estava interessado em que fosse mostrado respeito por esses miúdos. Se há alguma esperança de uma melhoria de vida, onde há-de ela começar senão na escola? Além disso, cada vez que, como professor, me foi pedido que fizesse alguma coisa que eu achasse interessante e conveniente, dizia logo: «Sim, gostaria de fazer isso.» e atirava-me de cabeça. Continuámos em Lehigh Avenue e eu ia para o South Side e dizia aos professores do Departamento: «Temos de encontrar maneiras de induzir os nossos alunos a serem empenhados», e coisas que tais."

Murray Ringold dá-se conta do seu erro da pior maneira possível: é roubado duas vezes, a mulher morre na sequência de um assalto. Eis a conclusão:

"Sabes do que me apercebi? Apercebi-me de que tinha sido atraiçoado. Não é uma ideia que me agrade, mas nunca mais me largou desde essa altura."

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Braga mexe


Às vezes sonho acordada, pensando nos dons que gostaria que me tivessem sido concedidos. Não quero ser ingrata: afinal de contas, aprendi a ler, a escrever e a fazer contas, conduzo sem grandes percalços e cozinho medianamente. Podia ser pior. No entanto, gostaria muito de cantar e de dançar... bem.

Outro dom que me faz muita falta, e que não possuo, é o da ubiquidade. Diz-nos "o Houaiss" que se trata da «faculdade divina de estar concomitantemente presente em toda a parte». Eu, simples mortal, contentar-me-ia em poder estar em dois sítios ao mesmo tempo. Hoje, por exemplo, gostaria de ir à sessão da Comunidade de Leitores, onde Alexandra Lucas Coelho apresentará, às 21h45m, no estaleiro cultural da Velha-a-Branca, o seu Caderno afegão; e de assistir ao concerto dos "Kings of convenience". "Em não podendo", recomendo-vos vivamente a leitura do livro e deixo-vos um excerto de uma das músicas dos "Kings of Convenience" de que mais gosto, "Failure" - que é também uma das minhas frases favoritas:

«Failure is always the best way to learn»

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Campanha eleitoral na ESVV (IV)

Para concluir, espero:
As campanhas políticas, seja qual for a sua esfera (internacional, nacional ou local) devem ser conduzidas com elevação. Os programas devem ser pensados de forma realista, prevendo soluções concretas. Os eleitores devem saber o que está em causa e o que, verdadeiramente, distingue os candidatos. Após as eleições, devem exigir o cumprimento das promessas. E os eleitos ficam obrigados a promover e-f-e-c-t-i-v-a-m-e-n-t-e as condições de trabalho e estudo dos votantes envolvidos. E ponto final.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Oh as árvores as árvores as árvores as árvores

Numa das série de banda desenhada que mais aprecio, Astérix (que existe aqui na Biblioteca), uma personagem canina, o Idéafix (que é de ideias fixas), sofre como um cão (o trocadilho é fácil, demasiado fácil, mas irresistível), sempre que uma árvore é arrancada.


No ano passado fiz uma promessa, que ainda não cumpri, à escritora Maria do Céu Nogueira. Ao passarmos no Alívio, ambas nos insurgimos contra a forma como as árvores tinham sido podadas. O panorama era tanto mais confrangedor, quanto de um lado tinham sido podadas e do outro não.


Desde que as brigadas municipais estão equipadas com motoserras, as árvores não são podadas, são mutiladas. Metem dó, as pobres. Depois crescem, é verdade, mas tortas, cheias de nós. Menos altivas. Que se cortem os ramos podres, acho bem. Agora que se dispam as árvores de ramos e de dignidade, acho mal. Dá-me vontade de uivar, como o Idéafix.



O meu sonho era que, tal como no álbum O Domínio dos Deuses, um druida inventasse bolotas mágicas capazes de gerar instantaneamente uma árvore altaneira. Andaria com os bolsos cheios de bolotas e atirá-las-ia sorrateiramente para as valas. Mas, como isso só existe nos meus sonhos mais selvagens, resta-me apelar às Câmaras Municipais para que deixem as árvores crescer em paz...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Está tudo ligado

O maestro Daniel Barenboim esteve em Lisboa na semana passada, desta feita na sua qualidade de pianista e de escritor, tendo dado dois concertos e apresentado o livro Está tudo ligado - o poder da música.
Daniel Barenboim é notável, não apenas pela sua carreira como músico, mas também pela sua obra (difícil, que se depara com muitos obstáculos e incompreensões) em prol de um entendimento entre israelitas e palestinianos. Um exemplo: o facto de ter tocado Richard Wagner (compositor predilecto de Adolf Hitler) em Israel foi considerado subversivo.
Os pais de Daniel Barenboim, judeus russos, refugiaram-se na Argentina e fixaram-se, nos anos cinquenta, em Israel. A aliança improvável de Barenboim com Edward Said, académico americano de origem palestiana que morreu em 2003, esteve na base da criação de uma orquestra que integra músicos árabes e judeus, a West-Eastern Divan Orchestra, num exemplo notável de ecumenismo musical, ou de utopia cultural - como quiserem.
http://www.livrarialeitura.pt/images//products/00000223163.JPG

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Educação e criatividade





O vídeo que a professora Ana Margarida fez o favor de colocar no blogue tem alguns defeitos e muitas qualidades. Os defeitos: o facto de ser enquadrado por uma campanha publicitária que não tem nada a ver; o facto de estar legendado em português falado (escrito) no Brasil, e com opções de tradução algo duvidosas.
Mas pouco importa. O vídeo tem também inúmeras qualidades, e vem mesmo a calhar numa altura em que os alunos de décimo ano começam a treinar os seus dotes oratórios. Reparem como este senhor, que não é um actor profissional (senão na medida em que, como rezava um lugar-comum dos estágios pedagógicos, "o professor é um actor"). Durante quase vinte minutos, sem papel ou teleponto, deixa uma audiência, que se adivinha exigente, em suspenso das suas palavras. Recorre, sem exageros hollywoodescos, ao sentido de humor e às histórias pessoais (apetecia-me dizer parábolas).
E, depois, o conteúdo, que diz respeito a todos: a vocês, queridos alunos. Do que querem da escola e da vida. A nós, pais, professores, do que queremos fazer com a escola, com os nossos filhos e alunos, com as sociedades do futuro. Do que a escola valoriza e desvaloriza. Do que pode acontecer quando a escola desvaloriza justamente aquilo que devia valorizar. Vejam-no e meditem-no. Eu confesso que, pela primeira vez na minha vida, almocei em frente ao écrã do computador, incapaz de me "despegar". Valeu a pena.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Banco de tempo

Outra iniciativa de que gostaria de lhes falar, e de que me lembrei a propósito do Comércio Justo, é o Banco do Tempo. Julgo que em Braga não há, ainda, iniciativas desse género, mas é uma coisa a pensar - para mais, em tempos de crise.
Claro que nós sabemos que, se o Banco do Tempo fosse aplicado em grande escala, a economia mundial poderia sofrer uma revolução de consequências indeterminadas. Mas não poderá isso acontecer, mesmo sem factores destes à mistura?!
O Banco do Tempo é uma prática ancestral. Muitos de nós fazem-no intuitivamente, por amizade ou simples solidariedade. A novidade desta iniciativa é que ela ocorre entre estranhos, que trocam serviços, como horas de babysitting por aulas de Inglês. Serviço de canalização por aulas de yoga. E assim por diante, sem envolver dinheiro...

sexta-feira, 27 de março de 2009

O estranho caso do assassino da leitura

Pedi emprestada a revista Ler porque queria ver uma entrevista do Carlos Vaz Marques ao António Barreto, um dos meus "gurus".
Infelizmente, parece-me que há lá algumas afirmações menos ponderadas. Claro que eu só me posso pronunciar sobre a parte da realidade que conheço. Porém, sendo professora de Português e trabalhando em equipa com vários colegas meus desta e de outras escolas, discordo que se diga "(...) a escola hoje destrói a leitura (...)", designadamente "(...) com a análise estruturalista e linguística dos textos (...)".
Claro que me aflijo, e muito, pelo facto de ter de trabalhar programas tão extensos, tantas competências - e, às vezes, tantas lacunas - em apenas duas vezes noventa minutos por semana. É óbvio que, tendo cento e oitenta alunos, não poderei desempenhar o papel que António Barreto preconiza, que consiste em "adequar o tipo de livro à pessoa em causa" - que é o papel do pedagogo grego, do perceptor privado, do mentor... ou dos pais.
Mas, mesmo sendo uma professora da vilipendiada "escola de massas", tento sugerir livros que, a meu ver, agradarão a este ou àquele aluno. E é frequente aceitar, sem sombra de remorso, que apresentem obras que de forma alguma fazem parte das minhas preferências pessoais.
É verdade que nas escolas coexistem as práticas mais diversas. Mas não podemos ignorar que, a par da entronização do Magalhães, há também um Plano Nacional de Leitura. E bem sabemos que, embora hoje haja muitos livros à disposição dos alunos, eles têm de competir com os muitos outros interesses dos jovens.
Ainda assim, considero que há alunos que lêem muito. Muitíssimo. E não me baseio apenas nos dados deste nosso observatório, mas ainda no que conheço de outros contextos.
Daí que considere, parafraseando Mark Twain, que a notícia da morte da leitura na escola é claramente exagerada.