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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Portugal e a Antena 2


Queixei-me, em tempos, de que a simpática jornalista que apresenta o noticiário das oito da Antena 2 media o tempo atmosférico em Portugal por aquilo que se verificava em Lisboa. Felizmente, há muito tempo que temos uma informação mais fidedigna.

Na quarta-feira passada, ao fim da tarde, a propósito de um evento que ia ocorrer no Instituto Franco-Português (que, pelos vistos, mudou de nome), comentava o locutor que nestes concertos se viam os portugueses de sempre. Algo assim (para pior) e garanto-vos que não exagero (não posso é "sacar" do bloco de notas enquanto conduzo).

Ora eu, por exemplo, sou portuguesa. O meu bilhete de identidade não deixa margem para dúvidas. No entanto, não faço parte do público português a que o jornalista da Antena 2 alude porque, geralmente, estou a 350 Km do Instituto Franco-Português. A 700 Km, em suma, de tudo o que se passa em Lisboa.

Aí está um dos motivos (um de entre muitos) por que lamento o fim de "Um certo olhar", que era uma tertúlia deslocalizada, isto é, acessível a qualquer ouvinte português. E não apenas àqueles que estão lá.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Antena 2

Durante anos, fui uma fiel ouvinte da TSF. Abandonei-a há alguns anos em prol da Antena 2. A qualidade musical tinha decaído, os noticiários repetiam as mesmas coisas até à exaustão, o fórum TSF permitia comentários populistas e demagógicos. Entretanto, a Antena 2 começou a emitir bons noticiários (claros, concisos, não entremeados de publicidade) a certas horas, a música era muitíssimo melhor, à noite passavam dois programas de jazz, havia entrevistadores muito bons (não apenas o já mencionado Luís Caetano, mas também, por exemplo, João Almeida). Paulo Alves Guerra entremeia informação com boa música, bons poemas, referências culturais inspiradoras, Pedro Malaquias é um cronista de espírito alerta e língua afiada. Aos Domingos há um programa sobre língua e cultura portuguesa... enfim: muito boas razões para me mudar de armas e bagagens para a Antena 2.
Claro que eu acho que há um senhor que, padecendo de teorite da conspiraçãozite intermitente, tem demasiado tempo de antena, sendo o seu programa reemitido em horários diferentes (ao contrário do que sucedeu com o meu querido "Um certo olhar", que passava à sexta e ao Domingo e, a certa altura, foi relegado para apenas uma emissão ao domingo a uma hora assaz matinal). Claro que havia uns concertos comentados por uns jovens com ar (tanto quanto uma voz pode ter "um ar") imberbe e comentários imaturos. Claro que a TSF continuava a ter o Carlos Vaz Marques e outros cujo nome não recordo. Mas a Antena 2 fazia-me crescer mais.
Agora, porém, dei por mim a cometer adultério: de manhã, das 8h às 8h20m ouço a Antena 2, mas das 13h40m às 14h ouço a TSF. Menos às sextas...

domingo, 5 de dezembro de 2010

Perspectivar

Não há como uma causa maior para nos ajudar a perspectivar as embirrações menores. Ando eu para aqui a embirrar com cartões vestidos de "lingerie" e com passeios perigosos e eis que deparo com um atentado à liberdade de opinião e ao espírito crítico.




Não sei se já o disse, mas ao Domingo, invariavelmente, ligo o despertador para as dez para ouvir o programa "Um certo olhar", emitido na Antena 2. O entrevistador é Luís Caetano e os participantes são Maria João Seixas, Luísa Schmidt e Miguel Real. Esta é a última formação, pois, à excepção de Luís Caetano e Maria João Seixas, os restantes intervenientes foram mudando. Gostei particularmente da fase em que entrava Vicente Jorge Silva, independentemente de concordar ou não com as suas opiniões. A sua verrina e as disputas memoráveis com Maria João Seixas deixaram-me saudades.

De Luís Caetano apenas posso dizer que é irrepreensível. Quanto a Maria João Seixas, nem sei por onde começar. Nem sempre concordo com a senhora (também, era o que mais faltava...). Uma vez, inclusivamente, discordei tanto de uma posição que tomou acerca dos professores que escrevi um "mail" a dizê-lo. Liberdade de opinião é isto. O pior é quando não há nada do que discordar, como acontecerá se o programa for eliminado da grelha da Antena 2.

Poder-lhes-ia dizer que Maria João Seixas me ajudou a formar, enquanto ser pensante e questionante, enquanto telespectadora e cidadã, enquanto (proto) cinéfila e leitora. Não perdia um único dos programas que fazia na televisão e uma vez, com algum sacrifício (material e pessoal) desloquei-me a Serralves para frequentar uma Comunidade de leitores que dirigiu. De alguma forma, à distância, considero-a uma mentora.
Durante anos, li os artigos que Luísa Schmidt foi publicando, com maior ou menor regularidade, no Expresso, bem como uma interessante série de documentários que fez para a RTP. Embora, por formação familiar, fosse uma temática importante para mim, o que com ela aprendi foi consolidando o que já sabia e pensava.

Não quero crer que seja a liberdade de opinião que estas pessoas (e as que as antecederam) demonstram frente aos microfones que ditou o fim do programa. Mas que a Antena 2 perderá ouvintes e que o país ficará mais pobre de muitos pontos de vista, nisso creio firmemente. E continuarão os mesmos fazedores (e manipuladores) de opinião do costume a escrever e a discursar de cada vez mais tribunas, até à opinião única final. A solução final.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Prémio Camões


O escritor Ferreira Gullar recebeu o prémio Camões. Hoje de manhã ouvi na Antena 2 o seguinte poema:


Não há Vagas




O preço do feijão

não cabe no poema. O preço

do arroz

não cabe no poema.



Não cabem no poema o gás

a luz o telefone

a sonegação

do leite

da carne

do açúcar

do pão



O funcionário público

não cabe no poema

com seu salário de fome

sua vida fechada

em arquivos.

Como não cabe no poema

o operário

que esmerila seu dia de aço

e carvão

nas oficinas escuras


- porque o poema, senhores,

está fechado:"não há vagas"



Só cabe no poema

o homem sem estômago

a mulher de nuvens

a fruta sem preço

O poema, senhores,

não fede

nem cheira

sábado, 3 de outubro de 2009

"Já não se escrevem cartas de amor"

É frequente ouvir uns bocadinhos do programa “Quinta essência”, que é emitido às sextas-feiras das 13 (suponho) às 14h (tenho a certeza) na Antena 2.
Hoje só ouvi o fim de uma entrevista a Mário Zambujal. A propósito, suponho, do seu livro Já não se escrevem cartas de amor, o escritor/jornalista/cronista desportivo/radialista (…) sustentou, com declarada nostalgia, que cartas de amor, tal como antigamente, já não haveria muitas. O entrevistador temperou a afirmação, avançando que talvez ainda houvesse... sms de amor. Não ouvi bem a resposta, mas a conversa mudou de rumo, pois, a dado momento, Mário Zambujal admitiu que só tinham mudado os adereços, e que a essência humana permanecia. A prova? A obra de Shakespeare, cujos tipos/personagens mantêm a frescura e a actualidade.

Pois é. Poderá não haver cartas de amor a circular, mas as pessoas encontram novos meios de se exprimirem. Sms, por certo, mas também mensagens electrónicas. Isso já vocês sabem… Ditos e não-ditos. Percursos por aqui e não por ali. Linguagem corporal. É como o senhor diz: “Só mudam os adereços”.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Elvira Fortunato versus Carlos Fiolhais

A gratidão é bonita, e nós gostamos.
Na sexta-feira passada, de regresso a Braga, ouvimos uma breve entrevista radiofónica concedida à Antena 2 por Carlos Fiolhais. Apesar do interesse da entrevista no seu todo, gostaríamos de destacar a parte em que o cientista se referia à classe docente. Carlos Folhais é um aluno grato e reconhecido aos professores que teve. Lembrou-nos, por contraste, a atitude da cientista Elvira Fortunato. Esta portuguesa brilhante é um típico produto da escola pública portuguesa do pós 25 de abril. Aparentemente oriunda de um meio modesto (jornalista dixit), a professora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Lisboa lidera uma equipa que produziu os primeiros transistores em papel, o que lhe valeu a atribuição de um prémio pelo European Research Council. Um exemplo que nos encheria incondicionalmente de orgulho, não fosse o facto de a investigadora, em entrevista ao Expresso, ter afirmado, a propósito da escolarização da única filha, a sua desconfiança pela escola pública. A própria carreira de Elvira Fortunato parece desmentir as suas afirmações. Numa sexta-feira fria e chuvosa, cheias de fome e cansadas, o pensamento, porventura injusto, que nos ocorreu, foi: "Não sirvas a quem serviu nem peças a quem pediu". E ainda "Este Carlos Fiolhais é um sinhor." Assim mesmo, à moda do Norte.
(E escusam de nos perguntar o que significa dixit. Quer apenas dizer que foi o/a jornalista que disse, e não nós. Mas em latim é mais engraçado)