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sábado, 18 de maio de 2013

Um encaixe narrativo de "Mel", de Ian McEwan

Eis parte do "reconto" de uma das histórias de Tom Haley, narrada (hmmm...) por Serena Frome:

 
"Sebastien Morel é professor de Francês numa grande escola perto de Tufnell Park, no Norte de Londres. É casado com Monica, têm dois filhos, uma rapariga de sete anos e um rapaz de quatro, e moram numa casa alugada perto de Finsbury Park. O trabalho de Sebastien é duro, inútil e mal pago, os alunos são insolentes e indisciplinados. Por vezes, passa o dia inteiro a tentar manter a ordem na aula  e a distribuir castigos em que não acredita. Maravilha-se com a irrelevância do conhecimento do francês rudimentar para as vidas daquelas crianças. Queria gostar delas, mas achava detestáveis a sua ignorância e agressividade e a maneira como humilhavam e intimidavam algum colega que ousasse mostrar interesse em aprender. Desta maneira não progrediam. Quase todos eles vão deixar a escola logo que possam e arranjar empregos não-qualificados, engravidar ou viver do subsídio de desemprego. Quer ajudá-los. Umas vezes sente pena deles, outras vezes esforça-se por disfarçar o desprezo que sente por eles." (p. 184)
 
(O narrador põe em itálico as citações ipsis verbis do conto de Haley. A obra, publicada pela Gradiva, é traduzida por Ana Falcão Bastos)
 
http://treharrisdistrict.tech-hosts.co.uk/cutenews/data/upimages/qy_school.jpg

sexta-feira, 17 de maio de 2013

"Mel", de Ian McEwan

Agora, sim, acabei de ler Mel. Lembram-se que queria um livro que não me obrigasse a pensar muito? Não tive lá muita pontaria, pois trata-se de uma obra intrincada, cheia de encaixes narrativos, apontando para géneros literários distintos, com reviravoltas inesperadas, estratégias deceptivas e um surpreendente, e engenhoso, final (simultaneamente aberto e feliz). Eu explico-me: temos uma bela protagonista, que faz a sua aprendizagem sentimental e vivencial e acaba por ingressar no MI5 (serviços de informação ingleses) como secretária/arquivista. Embora seja formada em Matemática por Cambridge, Serena passa os seus tempos livres a ler romances. Por isso, e no cenário da guerra fria, os seus superiores incumbem-lhe a tarefa de financiar um romancista emergente, cuja produção literária deverá influenciar. Se bem percebi (eu estava debilitada, lembram-se?), o MI5 considerava os intelectuais perigosos comunistas, capazes de influenciar os seus leitores. Assim, a admiração juvenil de Serena pela obra de Alexander Soljenitsin tornava-a muito recomendável para desempenhar esta tarefa. Porém, a jovem é, antes de tudo, uma leitora omnívora que, ao preparar-se para abordar Tom Haley, fica tão fascinada que nos conta, em encaixes sucessivos, os contos do escritor...
 
http://cdni.condenast.co.uk/262x393/s_v/SweetTooth_GQ_12Sep12_pr_b_262x393.jpg

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Ler jornais é saber mais

Como ia ter um "repouso forçado" entre quinta e sexta-feira, resolvi requisitar um livro da Biblioteca. Um livro que me interessasse, mas não me fizesse pensar muito. A escolha recaiu sobre Mel, de Ian Mc Ewan. Li-o quase todo, mas no fim-de-semana tive de corrigir duas turmas... e agora não sei dizer como termina o livro.
 
Uma das coisas que achei interessante é que, ou me engano muito, ou fui a primeira leitora a requisitá-lo. Fiquei sonhadora. Quando era novinha, li os livros todos lá de casa (mesmo aqueles que, claramente, não eram para a minha idade), os livros dos meus amigos, as bandas desenhadas de uma vizinha, os livros dos meus primos e dos amigos deles, os livros que havia na escola (quase todos relíquias do Estado Novo) e ainda os livros que deixavam trazer da Biblioteca Itinerante Gulbenkian que parava ao lado da matriz da Azurara. Não pensem, porém, que isto é uma crítica. Não é. Quando conto às alunas de Literatura que, nessa época, víamos um ou dois programas de televisão por dia, elas riem-se. Escuso de dizer, por óbvio, que não tínhamos telemóveis, computadores, jogos de consola ou facebook.  Tínhamos muito menos distrações, a pressão escolar, nesse tempo e na minha família, era muito menor, as férias prolongavam-se por três ou quatro meses e também éramos felizes.

Sempre pensei que, se tivesse ainda mais livros, seria hoje uma pessoa mais culta (também me lembro de achar vergonhoso não ter ainda lido os Cem anos de solidão aos vinte e seis anos).
 
Em Mel, há um jovem escritor de vinte e sete anos que  ainda não leu os Cem anos de solidão. No entanto, o livro ocupa-se da educação da jovem protagonista, Serena Frome. Uma educação sentimental, mas também gastronómica, informativa e cultural. Livro sobre livros, Mel é também um livro sobre uma determinada época e sobre a forma como a leitura de jornais abre os horizontes das pessoas - mesmo de jovens ingénuas, como Serena ou o meu eu de vinte e dois anos que decidiu - e cumpriu - dedicar uma parte do salário à aquisição de jornais. Até hoje.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Banda desenhada para adultos

 
Eu sei que nem sempre cumpro a minha missão, que consiste em divulgar os livros que há na Biblioteca. Na sexta-feira comprovei isso mesmo, ao constatar que temos Persépolis, o romance gráfico de Marjane Satrapi. Eu tenho-o em livro e em filme e sei-o de cor. E vocês?!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Um escritor apresenta-se... à ESVV


Os textos que se seguem são da responsabilidade da Zézin... da professora Maria José Ribeiro e dos seus alunos:

 

«Ele há muita curiosidade no ar!

O nome é estranho… Richard (nem tanto), mas Zimler…

Que faz ele aqui, um escritor “estrangeiro”? Que terá ele para nos dizer, a nós que nem sempre lidamos tão bem como gostaríamos com a língua inglesa??

Bem, mas ele senta-se. Pousa na mesa o chapéu… de abas largas (se não fosse verde, quase que nos faria lembrar Pessoa!). E começa a falar…em português! Apenas um pequeno e gracioso sotaque, mas fala bem e, pasme-se, entende-se! Fala e deixa falar, questionar. Responde. Interpela. Apresenta as suas obras, “como filhos adolescentes”, a quem “deixa voar” e ganhar vida própria! E bebe, bebe muita água. Está constipado, mas mesmo assim, entre nós. Entre nós, lusitanos, há vinte e três anos!

Perguntamo-nos, e perguntamos-lhe: porquê Portugal, porquê o Porto, porquê um país pequeno, porquê a nossa história?

E ouvimos a resposta mais improvável …( “E ouve um silêncio múrmuro consigo:”) – é o amor ao país, à língua, às gentes!

Zimler é mais, muito mais do que se poderia esperar – é alguém que está aí para nos ajudar a construir “um novo império”, o da divulgação da nossa língua e da nossa cultura. É mais um português universal. Mj

 


Depoimentos:

“Richard Zimler é o nome do escritor que nos visitou e se apresentou. Apresentou também, entre outros, o livro Ilha Teresa, o qual despertou grande interesse e motivou os alunos para a sua leitura, porque relata a sua experiência de imigrante “ao contrário”.

Admiramos a coragem perante os obstáculos encontrados na sua vida. Achamo-lo bastante espontâneo e divertido. Um escritor sem preconceitos. Um escritor que procurou descobrir a história do nosso país.

 

O 12.º G, Curso Técnico Profissional de Apoio Psicossocial, agradece a sua presença na escola ESVV” (texto sujeito a alterações)


 

Original e único:

"A exposição de Richard Zimler sobre as suas obras acabou por ser uma experiência marcante do ponto de vista cultural, já que o autor teve o cuidado e a atenção de apresentar sucintamente as experiências que o levaram a escrever as suas obras brilhantes.

Richard Zimler conseguiu transportar os interlocutores para o seu mundo, para os problemas da sociedade e permitiu um recuo exemplar na História, levando a plateia até ao clima da Segunda Guerra Mundial, algo que para nós, alunos de humanidades, é genial.

A genialidade do autor cativou, de modo geral, os alunos que conseguiram ficar a perceber um pouco mais a forma como este escritor executa as suas obras.

Concluindo, a exposição de Zimler serviu para expandir os horizontes das mentes daqueles que o escutaram. Agradecemos à biblioteca escolar e à direção da ESVV por nos ter proporcionado este momento."

Sérgio Neto, 12.º F

 

 
 

 

 
 


 

Dia da escola

Hoje a escola encheu-se de actividades.
 
 
Eu, como não tenho o dom da ubiquidade, fiquei-me logo ali pela Biblioteca, a relembrar - e a aprender coisas que não sabia. O grupo de História tinha organizado uma sessão, apresentada pela Ana Margarida Dias (a Margarida não é apenas bibliotecária, nem somente professora de História, nem sequer se limita a ser uma pessoa culta: a Margarida é também uma grande viajante) e engendrada, pareceu-me, num feliz conluio com a Arminda Fernandes e com a Ana Cristina Oliveira.
 

Vejam lá com o que elas se saíram: uma apresentação da vida de Van Gogh na Provença (baseada no catálogo Cores e pintores na Provença 1875-1920 e no sítio http://www.arlestourisme.com/le-19eme-et-van-gogh.html) Seguiu-se o visionamento de um "Sonho de Akira Kurosawa", em que Martin Scorsese encarna o pintor holandês (confesso que, até hoje, desconhecia em absoluto esta obra do mestre japonês, disponível para requisição na Biblioteca)  e uma apresentação, por duas jovens do VerdEmcena, de um excerto de A arte de viajar de Alain de Botton (livro passível de empréstimo domiciliário). Uma feliz conjugação, em que, frequentemente, as alusões do filósofo suíço eram ilustradas na tela de Van Gogh/Kurosawa. E por último, como não podia deixar de ser, assistiu-se ao filme "Van Gogh", de Maurice Pialat.
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

"A primavera há-de chegar, Bandini"

Só vos falei do filme de há pouco porque o Jeremy Irons "em velho escritor" comenta o livro que o plagiador premiado lê no parque: um livro de John Fante. Um bom escritor, que já ninguém lê... perdão, eu (graças aos meus amigos de sempre) ando a lê-lo - e estou a adorar.
 
 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Banda desenhada para adultos I


Achava eu que já tinha escrito neste blogue acerca de um dos romances gráficos que mais apreciei: Persepolis. Afinal, vim a descobrir que só falei nele de raspão.

Tinha até muitas razões para o referir: há quatro anos preparei uma aula de 9º ano de Francês com um cheirinho da obra e da sua autora, Marjane Satrapi. E, no ano passado, a Céu organizou, aqui na escola, um visionamento do filme correspondente.

Não escrever acerca desta obra é uma lacuna grave: regra geral, considera-se que Maus, de Art Spiegelman (que temos cá na Biblioteca) constitui a obra pioneira deste género emergente. Persepolis sucede-se-lhe. Se aprecio mais o traço de Spiegelman, considero que Satrapi tem muita qualidade gráfica - de tal forma que encontro na manta de retalhos feita por Raina, em Blankets, de Craig Thompson,  a proliferação de arabescos árabes. Além disso, têm em comum o facto de desenharem narrativas autobiográficas autoficcionais extremamente pungentes. Nesse sentido, este tipo de banda desenhada nada tem a ver com as que líamos em novinhos: Astérix, Tintin, Gaston Lagaffe, Spirou e Fantásio; nem sequer com os livros da Marvel, que li, não por amor, mas por desfastio.
 
Não, Maus e Persepolis são para adultos, e com bom estômago.

Podem ler na Wikipédia esta entrada e no Youtube este excerto do filme.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Livros para jovens inquietos I



Ontem, já nem sei a propósito de quê, disse aos meus alunos do décimo ano que estavam mesmo, mesmo, na idade de ler A metamorfose, de Franz Kafka. E contei-lhes o início (só mesmo o início).
 

Como estas coisas não se devem dizer de ânimo leve, hoje vim aqui à Biblioteca verificar se tínhamos o livro. Claro que temos.  E deixo-vos aqui o início dos tormentos de Gregor Samsa:
 
"Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto. Estava deitado de costas, umas costas tão duras como uma carapaça, e, ao levantar um pouco a cabeça, viu o seu ventre acastanhado, inchado e arredondado em anéis mais rígidos, sobre o qual o cobertor, quase a escorregar, dificilmente se mantinha. As suas numerosas patas, lamentavelmente raquíticas, comparadas com a sua corpulência, remexiam-se desesperadamente diante dos seus olhos.
«O que me aconteceu?», pensou."

Se eu me desse ao luxo de recorrer a alguns lugares-comuns que dão muito jeito (mas que eu rejeito), começaria o meu comentário da seguinte forma:

«Muito haveria a dizer acerca desta obra de Kafka. Dada a escassez de espaço (?) e de tempo, dir-vos-ei apenas que o problema de Gregor Samsa replica, de alguma forma, as angústias de todo o ser humano - e, por maioria de razões, dos adolescentes - no confronto com a família e com os outros.»


Mas, como já sou adulta e, neste momento,  o (excesso) de trabalho é uma das minhas principais preocupações, preferia dizer-vos que A metamorfose problematiza a questão da alienação no trabalho. Leituras muito parciais, que cada um colmatará como entender.
 
 
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

L'écume des jours, A espuma dos dias



Uma das cenas inesquecíveis do livro A espuma dos dias ocorre quando Colin, tentanto salvar a sua amada Chloé, arranja um trabalho.
Uma forma rápida de ganhar dinheiro (para quem não quer plantar eucaliptos para além dos limites do razoável, ou para quem não quer optar pela venda de droga) consiste em empregar-se na indústria de armamento. Para fazer armas é preciso calor humano, pelo que Colin se deita, despido, sobre doze buracos perfurados no solo, repartidos entre o fígado e o coração. Assim, nesta obra(-prima) de Boris Vian, a indústria do armamento não aniquila apenas aqueles que são atingidos pelos seus projécteis, consome, também, aqueles que os produzem.

Colin, com a sua total inépcia para o trabalho, produz armas defeituosas, não conseguindo assim ganhar o dinheiro de que precisava. Quando um operário lhe mostra a sua produção, verifica-se que, em vez de armas, o corpo de Colin fabricara uma bela rosa branca.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

No aniversário de Charles Dickens



Charles Dickens, de quem festejamos hoje o duplo centenário, acompanhou a minha infância e juventude. Chorei baba e ranho a ler David Copperfield, Oliver Twist, Nicholas Nickleby e Grandes Esperanças.  Li tardiamente Bleakhouse, mas o livro que mais apreciei foi Os cadernos do senhor Pickwick. Curiosamente, foi esse o livro escolhido por Ricardo Araújo Pereira para a colecção de humor  da Tinta da China. Ainda ontem o estive a "namorar" na Centésima Página, mas era muito caro. Um destes dias requisito-o numa livraria perto de mim...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

"Em casa", ou o fascínio de Bill Bryson

Há anos que vejo por aí (ou por aqui, pois temos vários aqui na Biblioteca) os livros deste autor, e sempre quis lê-los. Mas, vocês sabem como é, pego sempre noutros - de preferência literatura. Há duas semanas, porém, recebi um presente de Natal antecipado, e dei por mim a ler Em casa. Fiquei fascinada, apesar de não gostar muito dos textos promocionais e de achar a capa ridícula. Ei-la:


Mas li o livro quase de um fôlego (tanto quanto é possível a uma pessoa que trabalhe).
A ideia é muito interessante: o autor inquire, um por um, os espaços da velha reitoria em Norfolk onde mora. Compartimento a compartimento, ficamos a saber que objectos, móveis, inovações, invenções e costumes se usaram através do tempo. Trata-se de uma "forma leve" de história da vida privada, sem o peso académico. Uma leitura muito fluida, embora não isenta de defeitos, pois, por regra, apenas se centra na Inglaterra e Estados Unidos; e tende a repetir algumas formas de narrar. Defeitos menores, face ao interesse geral da leitura. Eu, pessoalmente, fiquei cliente.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Meias-tintas


Esta bela capa pertence a um dos livros que levei da Biblioteca, e que já li. Segunda-feira devolvo-o. Trata-se de um texto breve, bem escrito, interessante. O título é - como tantas vezes - enganador, pois remete para uma felicidade que não está lá. Aliás, todas as personagens são um pouco frustres. Às vezes estão perto dela, mas deitam-na a perder, hesitam, cometem o gesto fatal que estraga tudo, falam um pouco demais, ficam um pouco aquém das expectativas. Talvez a vida seja sempre assim, talvez não.
Gostei do livro, embora prefira autores como Carson McCullers (Coração, solitário caçador ou Balada do café triste) ou uma das autoras que adquirimos recentemente para a Biblioteca, Flannery O'Connor. Este é cinzento, os outros são negros, mesmo negros. Ainda mais perfeitos. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Leitura para férias

Embora esteja de férias,  vim à escola e - claro - fui irresistivelmente atraída para a Biblioteca. Ando há meses a ansiar pelas férias, para ler à minha vontade. Há meses a arrecadar livros, a fazer pilhas, a pensar neste e naquele que tenho de acrescentar ao monte.
E mesmo assim, não resisto a levar dois livros da biblioteca: Pau-Brasil, de Jean-Christophe Rufin e Perto da felicidade de Richard Yates (esses já cá cantam, escusam de os vir buscar).
Mas passei de viés por Deixem passar o homem invisível, de Rui Cardoso Martins e O cemitério dos barcos sem nome e O mestre de esgrima, de Arturo Pérez-Reverte. Quase tenho pena de já os ter lido...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Conseguir quase sempre as notas mais altas nos exames, e sem ter de queimar as pestanas

O rapaz chamado Corvo (ainda não sei quem é, mas vos garanto que hei-de saber) aconselha o fugitivo de Kafka à beira-mar:
«Os factos e a teoria ou lá o que vos ensinam na escola não vai servir de muito no mundo real, isso é limpinho. Podes ter a certeza de que os professores não passam quase todos de um punhado de débeis mentais. Mas uma coisa é certa: estás a preparar-te para fugir de casa. Se calhar nunca mais tens hipótese de ir às aulas, por isso, gostes ou não, o melhor que tens a fazer é aproveitar a oportunidade ao máximo. Faz de conta que és uma folha de papel mata-borrão e trata de absorver tudo o que puderes. Mais tarde logo decides o que é que te interessa reter e o que não serve para nada.»
E o protagonista comenta: «Fiz como ele dizia. Neste ponto convém dizer que, regra geral, sigo os conselhos dele à risca. Apurei os sentidos e usei o meu cérebro como uma esponja, atento a cada palavra que era dita na sala de aula e captando tudo, a fim de perceber o significado das coisas e de conservar tudo na memória. Graças a isso, consegui quase sempre as notas mais altas nos exames, e sem ter de queimar as pestanas.» (pp. 15-16)

A Biblioteca, um lugar para viver

Ando há anos para ler o Murakami, um dos autores preferidos da minha amiga Raquel. Hoje, enquanto os alunos do 7ºC viam "Bienvenue chez les ch'tis" - que já vi duas ou três vezes - folheei Kafka à beira-mar. Fiquei espantada com as menções a bibliotecas que aí encontrei. A páginas onze, o protagonista, um jovem de quinze anos, diz:
«No dia em que fizer quinze anos fujo de casa e sigo viagem até uma cidade distante, e ficarei aí a viver, num canto de uma biblioteca qualquer.»

terça-feira, 24 de maio de 2011

Cusquices da sala de professores


É engraçado: ando há tempos para falar da Lisbeth Salander... vocês sabem, a protagonista da trilogia Millenium, aquela heroína improvável que, no entanto, figura num livrinho acerca dos heróis da literatura para jovens que o meu centro de recursos teve a gentileza de me oferecer?
Já andava eu a congeminar neste meu "post", quando ouço o Zé Tó a "evangelizar" a Maria José Carvalho. Que tinha dado com os livros Millenium por acaso, porque tem uma tia no Algarve e gosta muito de ir a uma livraria Bertrand onde uma das vendedoras lhe recomenda as últimas novidades. E o Zé Tó continuava: que eram fantásticos, mas que os direitos de autor estavam envolvidos em grande polémica... (fico-me por aqui, se não os meus colegas deixam de abrir a boca à minha frente).
Hoje, na sala de professores, fiquei a saber que a família Cruz, toda, os anda a ler. A febre do Milénio alastra pela escola. Porque não vêm, vocês também, requisitar um dos três livros desta saga pós-moderna?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Uma história de amor e de trevas

Mas, antes de A máquina de fazer espanhóis (menor e menos pesado, por isso mais apropriado ao tempo de aulas), li Uma história de amor e de trevas. Eu, que sempre me queixei de não perceber o conflito israelo-árabe (senão nos traços gerais), fiquei com uma visão muito mais nítida desta eterna pedra  do sapato da paz mundial. Fiquei também a conhecer o escritor Amos Oz, a sua história e a da sua família. Já percebi que não descanso enquanto não pedir emprestados mais livros dele. Para tão longas leituras tão curta a vida...

terça-feira, 29 de março de 2011

Publicidade viral

Ontem a Ana Paula falou-me com entusiasmo do livro A máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe. Pensei: «Vou comprar. Quando puder.» Hoje a Margarida disse-me: «A Ana Paula falou-me muito bem deA máquina de fazer espanhóis. Comprei-o para a biblioteca. »

sexta-feira, 25 de março de 2011

Um dos grandes temas da actualidade

Nada como um poema para nos obrigar a perspectivar as coisas. Ou como uma música: tal como na semana passada, a banda sonora dos meus dias é "Cuidado com as imitações"...


«Um dos grandes temas da actualidade
é sem dúvida esta panela de esmalte
cheia de peixes brancos como panos
a cozer ao lume perguntar-me-ão
mas o que é que lhe aconteceu com os peixes brancos?
e eu perguntar-vos-ei
o que é acontecer?
esses peixes brancos aconteceram-me
eu mal olhei para eles
eles nem me viram
julgam que com as pessoas de quem
eu estou sempre a falar me aconteceu
muito mais do que com esses peixes brancos?
realmente aconteceu (os peixes brancos ainda não
me feriram) mas elas devem ter-se
apercebido tanto disso como esses peixes brancos
a minha vida está cheia de
importantíssimos peixes brancos
(não são para mim, são para o meu gato)»

(Adília Lopes)