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quarta-feira, 27 de março de 2013

«O mais revelador memorial do passado da humanidade»

Motivada pelas minhas leituras de adolescência, sempre quis ir a Pompeia. Realizei esse sonho há uns anos, ficando para sempre com a mágoa de não ter ido ver Herculano (que isto de fazer viagens em grupo é bom, mas há que fazer concessões. A mim concederam-me a ida a Pompeia, e já não foi mau).
Agora que o British Museum vai inaugurar uma exposição às duas cidades romanas soterradas sob as cinzas do Vesúvio em 79 d.C. (como descobri hoje ao clicar no Público em linha), vou poder ver um pouco mais. E vocês também.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Salgueiro Maia comanda...




... Francisco Sousa Tavares, de megafone, contextualiza (4:54), Sophia de Mello Breyner Andresen escreve:

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

sábado, 1 de maio de 2010

Da paixão

Estou apaixonada. Há muito tempo que não me sentia assim, tão enamorada, com os sentidos tão despertos, com esta vontade de me levantar cedo ao Sábado para escrever alto e bom som (ou em maiúsculas e em "bold"?!) que ESTOU APAIXONADA.

Como tantas vezes acontece, estou apaixonada por quem ainda não conheço muito bem. Talvez seja por isso que nunca me apaixonei por nenhum dos meus amigos de infância (os amigos dos meus pais bem me queriam para nora, mas não estava assim destinado). Talvez seja por isso que não estou apaixonada pelo Marcel, que conheço demasiado bem. Tenho muito carinho por ele, adormeci muitas vezes a seu lado, mas não estou apaixonada.

Agora, porém, estou apaixonada pelo Enrique. O Enrique, aliás, conhece o Marcel. E foi-me apresentado pelo (ele, sempre ele) meu mentor. E agora eu estou apaixonada, e deito-me com ele, e acordo às seis da manhã para, por inteiro, a ele me dedicar.

Para me dedicar ao meu esplêndido, maravilhoso, encantador, fascinante Bartleby & Companhia, do Enrique (Vila-Matas). Eu gosto do Marcel e de A la Recherche du temps perdu. Mas ontem conheci o Enrique e agora estou apaixonada por ele. Sou volúvel.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Mais anjos

O Anjo

O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.

in ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner - Dia do mar. Caminho, 2005, p. 31

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Anjos criados em Cervães

Os anjos de Jorge de Sousa Braga têm essa qualidade algo irónica de "anjinhos papudos", como, aliás, boa parte da sua obra poética. Olhem que engraçado, neste


IGREJA DE SANTA CATARINA
Um anjo papudo olha-me
lá do alto e eu estendo
as mãos não vá ele es-
tatelar-se no asfalto
Um anjo papudo
pintado de azul-cobalto.

ou em
AS TROMBETAS DOS ANJOS
As primeiras trombetas dos anjos
despontaram hoje sobre os muros
da alameda. Ao volante dum Ford
apesar do pára-arranca chega-
me aos ouvidos silenciosa e doce
a sua música branda.

ou, ainda, em

UM ANJO NO PORTO
Eu vi-o um dia destes pairando
sobre a Torre dos Clérigos
ou descendo a Avenida dos
Aliados ao fim da tarde
Disfarçava mal as asas
por debaixo da gabardina
e abdicara da auréola. Po-
dem não acreditar mas eu
vi-o. Da última vez atra-
vessava a pé o rio

Os anjos de Sousa Braga conferem uma dimensão poética à cidade.
Sendo anjos, são também humanos (podem estatelar-se no solo e ser amparados por um poeta, um humano que olha o céu e os beirais em vez de cravar os olhos no chão ou nas montras). Com a sua música branda, salvam os condutores presos no tédio do tráfego. Sobrevoam a cidade e misturam-se com os comuns mortais. Ou são pessoas nas quais o poeta entrevê qualidades angelicais: às vezes pairam, outras caminham. Tal e qual como nós, que, sobretudo em dias de nevoeiro, conseguimos fazer as duas coisas ao mesmo tempo.



sábado, 9 de maio de 2009

Asas definitivamente não assexuadas

Mas, como é fim-de-semana, deixamo-vos a letra de uma música dos GNR (bem podem agradecer às professoras Ana Cristina Oliveira e Gracinda Duarte. Foram elas que se lembraram. Ficaram ambas com um ar sonhador, não sei lá porquê...)

Asas servem para voar,
Para sonhar, ou para planar
Visitar, espreitar, espiar,
Mil casas do ar.
As asas não se vão cortar;
Asas são para combater,
Num lugar infinito no vácuo,
Para respirar o ar.
As asas são
Para proteger, te pintar
Não te esquecer,
Visitar-te, olhar-te, espreitar-te
Bem alto do ar.
E só quando quiseres pousar
Da paixão que te roer,
É um amor que vês nascer
Sem prazo, idade de acabar.
Não há leis para te prender
Aconteça o que acontecer.
Mas só quando quiseres pousar
Da paixão que te roer,
É um amor que vês nascer
Sem prazo, idade de acabar. (x2)
Não há leis para te prender
Aconteça o que acontecer.
Não vejo leis para te prender
Aconteça o que acontecer.
Não há leis para te prender
Aconteça o que acontecer...

Anjos em Garrett

Os portugueses têm uma certa tendência para serem mais inefáveis (dos mais antigos, nem se fala.) Almeida Garrett é um homem do seu tempo, como se pode ver pelo poema que transcrevemos de Flores sem Fruto:

AS MINHAS ASAS

Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Bati-as, voava ao céu.

– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.

Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
Podem ler, do mesmo autor, "O Anjo caído": "Era um anjo de Deus / Que se perdera dos céus / E terra a terra voava. (...)" e "Anjo és": "Anjo és tu, que esse poder / Jamais o teve mulher (...)".

Drummond em Adélia, ou de como um anjo PODE ter sexo

Adélia Prado, essa maravilhosa e ainda não muito conhecida (entre nós) "poeta" brasileira, é muito mais positiva - como é seu timbre. Reparem como a condição feminina é considerada uma vantagem, e não uma desvantagem. O seu desassombramento assombra-me. Prometo revisitá-la...


COM LICENÇA POÉTICA
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.


(In Adélia Prado, Poesia Reunida, Siciliano, São Paulo, 1991)

Vou só repetir, para saborear devidamente: "(...) já a minha vontade de alegria, / sua raiz vai ao meu mil avô."

Sem querer cair no "psicologismo", um dos aspectos que mais me agrada em Adélia Prado é esta vontade de alegria, sinónimo de inteligência emocional (confesso que a leitura do livro Inteligência emocional de David Goleman me afectou profundamente. Confesso que, se tivesse tempo para fazer pesquisas relacionadas com o meu trabalho - não tenho... - essa seria a área a que me votaria. O livro está integralmente disponível na Internet.)

Pergunta para os alunos do 10º ano que andam a ler "O quarto anjo" de José Eduardo Agualusa: qual é o anjo que revela mais inteligência emocional?

Anjos e Drummond em Chico


Numa música muito conhecida, que embalou a minha infância e juventude, Chico Buarque revisita Drummond:

Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pr'onde mesmo que vou
Mas vou até o fim
Como já disse, era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até ao fim.

Anjos em Drummond


Reparem como Carlos Drummond de Andrade inicia um dos seus poemas mais conhecidos (e mais glosados), "Poema de sete faces":

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Anjos


A professora Ana Paula Matos pôs-nos a seguinte questão: que sabemos nós sobre anjos? As resposta são múltiplas. Assim, à partida, sem preparação nenhuma, e exceptuando os anjos vicentinos acerca dos quais TODOS os alunos do nono ano em diante sabem alguma coisa - e não venha cá a nossa querida anónima do 12º duvidar, porque sabem. Tenho ou não razão? ; )
A pergunta vinha a propósito de um conto do José Eduardo Agualusa que vamos trabalhar nas aulas de Português. Visualizámos logo uma imensa quantidade de caricaturas com anjos. Vá-se lá saber porquê, há muitas. E depois, um daqueles filmes da vida de muita gente (eu incluída), As asas do desejo, de Win Wenders. Um filme deslumbrante, aqui na Biblioteca, à espera que vocês o requisitem...
Há anjos pintados por todo o lado (nomeadamente os de Rafael, reproduzidos ad nauseam em posters, T-shirts, guarda-chuvas). Um dos insultos mais criativos que conheço (estou a exceptuar os do capitão Haddock) é "Meu anjinho papudo!" E eu própria tenho um casaco acolchoado de meia estação, de que gosto muito, mas que larga penas - o que me deixa aborrecida e, ao mesmo tempo, meio sonhadora...
O Luís Fernando Veríssimo tem um livro de que talvez vos tenha falado, um policial cheio de sentido de humor, intitulado O clube dos Anjos. Os brasileiros parecem gostar muito de anjos (leiam o tal conto do José Eduardo Agualusa, "O quarto anjo", e talvez percebam porquê...).

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Bloco C, porta azul


Este blog era para se chamar "Bloc C, porta azul". Por razões práticas, ficou reduzido a "portazul". Descobrimos depois que havia outros sites com nomes semelhantes.

A designação é... toponímica. Alguém perguntou «Onde é a Biblioteca?» e alguém respondeu «Bloco C, porta azul». Os tempos estão de contenção, as pessoas até nas palavras poupam, mas o nome é simpático. Contraria o verde um pouco sinistro das coberturas. Alude à cor em que a porta foi pintada. É ecológico (ninguém sabe, mas teve de ser azul para aproveitar as sobras de tinta do exterior dos blocos). Faz lembrar o mar. Um verso hipnótico de Mário de Sá-Carneiro. Uma letra de uma canção esquecida: "Azul, azul, da cor do mar..." Um texto de Almada, um quadro de Eduardo Viana: "K 4, quadrado azul". Não é bem o azul Klein, é outro azul. O nosso azul.

Agora, na Biblioteca da Escola Secundária de Vila Verde, um pouco mais de azul. Porque queremos ir mais além. Ter, quem sabe?, golpe de asa.