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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Cueiros= fraldas


Às vezes, parece que tudo piora. Nos jornais, isso é frequentemente verdade. Ainda esta semana, no Expresso, desabafava, a propósito da campanha eleitoral, Clara Ferreira Alves (que deve saber do que fala):

«Nunca foi tão visível o empobrecimento intelectual do jornalismo e da política. O jornalismo tem de fazer as perguntas que ninguém faz e obter as respostas a que o público tem direito. Chegaram à profissão carregamentos de jovens sem preparação, mão de obra barata que exerce a profissão com a leviandade e a ignorância dos maus alunos. Existem colunistas e comentadores de cueiros, ligados a partidos e presumindo de independentes, existem estagiários a cobrir acontecimentos históricos, existem editores que não editam, existem prioridades invertidas. Existem trepadores sociais e velhos do Restelo. Quando Portugal é falado em todo o mundo por causa da incapacidade de resolver o problema do financiamento externo, analisando friamente o problema (o que em Portugal nunca se faz, apesar de tanto comentador) os jornais e televisões dedicam espaço e atenção ao "modelo" Renato Seabra e ao assassínio de Carlos Castro, subitamente promovido a "jornalista". Destacando repórteres e meios que nunca destacam para cobrir acontecimentos internacionais que nos dizem respeito, o jornalismo tabloide chafurdou neste caso e agarrou-se a ele como tábua de salvação. Dá audiências, as audiências que este jornalismo criou e alimenta. a nossa pouca exigência é o resultado desta indigência. E a nossa complacência para com a má governação é o resultado desta falta de atenção e inversão das prioridades. O país tornou-se como a televisão que tem: um jornaleco de escândalos.»

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Mitos, superstições e falsas crenças (IV)

Aliás, as Produções Fictícias, empresa de conteúdos culturais (não tenho bem a certeza de que a designação seja correcta) tem uma presença cada vez mais importante nas nossas vidas. O seu volume de negócios, presume-se, será elevado. E quem a lidera? Nuno Artur Silva, mais um homem de letras.

Mitos, superstições e falsas crenças (III)

Ressalva importante encontra-se num destaque no mesmo artigo, onde João Fernandes, director do Museu de Serralves, alerta: "(...) acho que seria importante que não se começasse a olhar para a arte e cultura do ponto de vista economicista. Seria aprisioná-las e pôr-lhes fim."

Mitos, superstições e falsas crenças (II)

O caderno de Economia do Expresso de 20 de Fevereiro contém um texto de Alexandra Carita que se inicia da seguinte forma:

"O sector cultural e criativo cresceu mais do dobro do que a própria economia. Um crescimento anual de 2,9% torna-o num dos sectores mais dinâmicos da economia nacional face a uma taxa média de crescimento da economia situada nos 1,3%."

Este sector terá gerado em 2006 mais de 3690 milhões de euros, tem "(...) um desempenho económico superior ao sector têxtil e de vestuário, ou muito semelhante ao do sector automóvel, [é] mais activo que as indústrias de alimentação e bebidas", " (...) é responsável por mais postos de trabalho que as actividades imobiliárias e emprega metade dos trabalhadores (...) da hotelaria e restauração", num total de 127 mil postos.


Para mim, que já ouvi mais do que uma vez dizer que isto ou aquilo (as obras de leitura integral, os exercícios de escrita criativa e correctiva, o francês, a gramática, "you name it") não serve para nada, este artigo - tal como a entrevista de Ricardo Araújo Pereira - foi um bálsamo.


É que, se às vezes apetece responder "É a cultura, estúpido!", agora também já posso dizer "E dá milhões."

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Ricardo Araújo Pereira, o intelectual improvável

Na NS de 20/2/2010 li uma entrevista de Ricardo Araújo Pereira. Não a tenho aqui, pelo que terão de me perdoar algumas imprecisões. Vou ver se arranjo um exemplar, para que não me esqueçam os muitos aspectos importantes de que vos quero falar.

Razões de peso me levam a falar do primeiro. É que resolvi trazer os meus Dez livros da Arquitectura, de Vitrúvio, para redigir um textozinho sobre a catástrofe na Madeira no blogue "Duas culturas". Ora, já que vim carregada, vou pô-lo a render.

Acontece que Vitrúvio, arquitecto militar romano que escreve o seu tratado no século I a. C., considera que o arquitecto deverá ser "(...) instruido en las Buenas Letras, diestro en el Dibuxo, habil en Geometría, inteligente en la Óptica, instruido en la Aritmética, versado en la Historia, Filósofo, Médico, Jurisconsulto, y Astrólogo".


Porquê literato? "(...) para poder con escritos asegurar sus estudios en la memoria."


Porquê filósofo? "La Filosofía hace magnánimo el Architecto, y que no sea arrogante, antes flexible, leal y justo: sin avaricia, que es lo pricipal; pues no puede haber obra bien hecha sin fidelidad y entereza. No será codicioso, ní amigo de receber regalos; antes procure antener su reputacion con gravedad y buena fama (...)"

Ricardo Araújo Pereira rejeita explicitamente a astrologia (leiam a entrevista e vejam se não tenho razão). Porém, é um homem culto, um intelectual que não vive nas altas esferas, mas que toma partido quando deve fazê-lo. Escreve bem (as suas crónicas atestam-no). Não é arrogante (o jornalista testemunha a sua tendência para se desmerecer). Não é ganancioso (está em "ano sabático"). Não será grave, mas tem demonstrado inteireza moral e postura ética (veja-se o caso dos cartazes).

Não sei se merecemos um humorista desta craveira. Mas que temos sorte em tê-lo, lá isso temos.